Abuso dos nomes e termos sagrados

Enviado por Estante Virtual em dom, 12/02/2012 - 21:28

P: Então, o que ouvi dizer, que muitos dos escritores teosóficos pretendem ter sido inspirados por esses Mestres, ou que os viram e falaram com eles, não é certo?

T: Pode ser ou não. Como posso eu saber? Prová-lo cabe a eles. Alguns, embora poucos, bem poucos na verdade, ou mentiram de um modo evidente, ou estavam alucinados ao vangloriar-se de semelhante inspiração; outros foram verdadeiramente inspirados por grandes adeptos. Uma árvore se conhece pelo fruto; e como todos os teósofos serão julgados por seus atos e não pelo que escrevem ou dizem, todos os livros teosóficos devem ser aceitos conforme seus méritos e não como regra à pretensão de autoridade que possa alegar.

 

P: Sem dúvida, madame Blavatsky faz isto com relação a suas próprias obras. A Doutrina Secreta, por exemplo.

T: Certo. Está dito de modo explícito no prefácio, que apresenta as doutrinas que os Mestres me ensinaram; mas não pretendo inspiração alguma com relação ao que escrevi ultimamente. Alguns teósofos também teriam preferido que nunca se tivesse mencionado o nome dos Mestres em nossos livros. Com poucas exceções, a maioria dessas obras não só é imperfeita, mas também positivamente errônea e enganosa, Os nomes de dois Mestres têm sido vítimas de enormes profanações. Dificilmente se encontra um médium que não pretende tê-los visto. Existem sociedades com fins lucrativos que agora pretendem provar que são dirigidos por Mestres muito mais elevados do que os nossos! Numerosos e graves são os pecados daqueles que afirmam tal coisa, impulsionados ou pelo desejo de lucro, pela vaidade ou por um mediunismo irresponsável. Muitas pessoas foram despojadas de seu dinheiro por essas sociedades, que oferecem em troca do ouro depreciável os segredos do poder, do conhecimento e da verdade espiritual. E pior do que tudo isto, os nomes sagrados do Ocultismo e os santos guardiões do mesmo têm sido arrastados nesse lodo asqueroso, manchados pelo fato de se verem associados com motivos sórdidos e práticas imorais, impedindo que milhares de homens entrem no caminho da verdade e da luz, pelo descrédito e má fama que semelhantes enganadores e farsantes criaram sobre o assunto. Repito que todo teósofo sincero sente hoje no fundo de seu coração que esses nomes e coisas sagradas jamais deveriam ter sido mencionados em público, e lamenta-se profundamente de que não se tenham conservado secretos entre um pequeno círculo de amigos leais e seguros.

 

P: Seus nomes são citados muito freqüentemente hoje em dia, e não me lembro de ter ouvido jamais falar de tais Mestres, até muito recentemente.

T: Assim é; e se tivéssemos agido observando o sábio princípio do silêncio em vez de chamar a atenção e de publicar tudo o que sabíamos e ouvíamos, não teria tido lugar semelhante profanação. Observe que 14 anos atrás, antes de que se fundasse a Sociedade Teosófica, apenas se ouvia falar dos "espíritos". Estavam em toda parte, na boca de todo mundo, e a ninguém, nem mesmo por casualidade, ocorreria falar dos "adeptos", Mahatmas, ou "Mestres" vivos. Nem sequer se ouvia o nome dos Rosa-cruzes, e a existência do Ocultismo era apenas suspeitada por muito poucos. Agora tudo isto mudou. Infelizmente fomos nós, os teósofos, os primeiros a falar nessas coisas, em dar a conhecer o fato de existir no Oriente "adeptos", "Mestres" e Sabedoria Oculta; e agora esses nomes converteram-se em propriedade de todos. Portanto, sobre nós recai agora o Karma: conseqüências da profanação de nomes e coisas santas. Tudo o que agora se encontra sobre essas matérias na literatura corrente — que não é pouca — tudo deve ser atribuído ao impulso dado nesse sentido pela Sociedade Teosófica e seus fundadores. Nossos inimigos aproveitam-se de nosso erro. O mais recente livro lançado contra nossas doutrinas, diz-se que foi escrito por um adepto que fazia já vinte anos que conseguira a transformação. Pois bem: isto é uma mentira palpável. Conhecemos o amanuense e seus inspiradores (já que ele é demasiado ignorante para ter escrito algo deste gênero). Esses "inspiradores" são pessoas vivas, rancorosas e sem escrúpulos na proporção de seus poderes intelectuais; e esses falsos adeptos não são um, mas vários. O ciclo dos "adeptos" empregados como bate-estacas para romper as cabeças teosóficas, começou há doze anos com o "Luís" da sra. Emma Hardinge Britten, da Arte Mágica e a Terra dos Espíritos, e termina agora com o "adepto" e "autor" de A Luz do Egito, obra escrita pelos espíritas contra a Teosofia e suas doutrinas. Mas é inútil lamentar-se do passado; apenas podemos sofrer com a esperança de que nossas indiscrições possam ter facilitado algo aos demais no encontrar o caminho que conduz aos Mestres, cujos nomes tomam em vão em toda parte, e sob os quais já se cometeram tantas iniquidades.

 

P: Não admite "Luís" como adepto?

T: Não denunciamos a ninguém e deixamos essa nobre empresa a nossos inimigos. A autora espírita da Arte Mágica pode ou não ter conhecido semelhante adepto; isto é uma questão dela, e ao expressar-se assim digo muito menos do que essa senhora disse e escreveu contra nós e a Teosofia durante os últimos anos. Só que, quando em uma cena celeste de visão mística, um suposto "adepto" vê "espíritos", provavelmente em Greenwich, Inglaterra, por meio do telescópio de lord Rosse, que foi construído por Parsonstown, Irlanda[1] e que jamais se moveu dali, bem posso me permitir estranhar a ignorância daquele "adepto" em matérias científicas. Isto já excede a todos os erros e faltas cometidas às vezes pelo chelas de nossos "Mestres". E este é o "adepto" de que se servem agora para jogar por terra os ensinamentos daqueles!

 

P: Compreendo perfeitamente seus sentimentos sobre esta questão, e os considero muito naturais. E agora, em vista de tudo o que me disse e explicou, existe um ponto sobre o qual desejaria jazer algumas perguntas.

T:  Responderei se puder.   Quais são?



[1] Veja Ghost Land (Terra  dos  Fantasmas),  na primeira parte.