Clarividência no Espaço: Intencional

Enviado por Estante Virtual em dom, 01/22/2012 - 02:58

Definimo-la como sendo a capacidade de ver acontecimentos ou cenas afastadas do vidente no espaço e longe demais para a observação usual. Os casos desta visão são tantos e tão variados que veremos ser precisa uma classificação um pouco mais detalhada deles. Não importa muito qual o critério de que nos servimos para tal classificação, logo que ele seja suficientemente largo para incluir todos os casos que encontremos; talvez um critério cômodo seja o de os agrupar sob as classes de clarividência no espaço, intencional e não intencional, com uma classe intermédia, descritível como semi-intencional — um título curioso, é certo, mas que adiante explicarei. 

Como dantes, começarei por dizer o que é possível neste sentido ao vidente inteiramente instruído, e tentarei explicar como opera essa faculdade e dentro de que limites se revela. Depois disso, estaremos em melhor situação para tentar compreender os múltiplos exemplos de visão parcial e não educada. Consideremos em primeiro lugar a clarividência intencional.

É evidente, do que antes se disse sobre o poder de visão astral, que qualquer pessoa que a possua completamente será capaz de, por meio dela, ver quase tudo o que quiser ver neste mundo. Os mais recônditos lugares estão patentes à sua vista, e não há para ela obstáculos intermédios, dada a mudança no seu ponto de vista; de modo que, se lhe concedermos o poder de se deslocar de um lado para o outro com o corpo astral, ela poderá sem dificuldade, ir a toda a parte e ver tudo dentro dos limites do planeta. De resto, isto é-lhe, mesmo, em grande parte possível sem que haja de deslocar o seu corpo astral, como adiante se verá. 

Consideremos um pouco mais de perto os métodos pêlos quais esta vista super física pode ser empregada para observar acontecimentos que se estão passando a distância. Quando, por exemplo, um indivíduo aqui em Inglaterra vê nos seus mínimos detalhes qualquer cousa que está acontecendo no momento na índia ou na América, como é que isso se dá? 

Apareceu uma hipótese engenhosíssima para explicar o fenômeno. Supôs-se que cada objeto esteja perpetuamente emanando radiações em todas as direções nalguns respeitos semelhantes (salvo em serem infinitamente mais tênues) aos raios de luz, e que a clarividência não passa do poder de ver por estas mais tênues radiações. Nesse caso, a distância não constituiria obstáculo à vista, pois que todos os objetos intermédios seriam penetráveis por estes raios, e estes poderiam entrecruzar-se até ao infinito em todas as direções sem se embrulharem, exatamente como acontece às vibrações da luz usual. 

Ora, ainda que não seja esta a maneira de operar da clarividência, a teoria é, ainda assim, perfeitamente verdadeira na maioria dos seus postulados. Não há dúvida que cada objeto constantemente está irradiando em todas as direções, e é precisamente deste modo, ainda que num plano superior, que os registros akáshicos parecem ser formados. Destes registros será necessário que tratemos na secção seguinte, e por isso basta, por enquanto, que apenas os mencionemos. Os fenômenos de psicometria dependem também destas emanações, como adiante será explicado. 

Há, porém, certas dificuldades práticas no uso destas vibrações etéricas (porque é isso, é claro, o que elas são) como meio de ver qualquer cousa que esteja acontecendo a distância. Os objetos interpostos não são inteiramente transparentes, e como os atores na cena que o experimentador quisesse observar seriam pelo menos tão transparentes como esses, é evidente que se correria o risco de uma séria confusão. 

A dimensão adicional que entraria em jogo se fossem astrais, em vez de etéricas, as emanações sentidas, afastaria algumas das dificuldades, mas, por seu turno, traria novas complicações, de outro gênero; de modo que, para fins práticos, ao tentarmos compreender a clarividência, o melhor será que afastemos esta hipótese das radiações e passemos a considerar os métodos de visão a distância que presentemente estão ao alcance do estudioso deste assunto. Veremos que esses métodos são cinco, dos quais quatro são na verdade propriedades da clarividência, ao passo que o quinto não entra propriamente nessa classe, visto que pertence ao domínio da magia. Comecemos por este, para que desde já o afastemos. 

1. — Pelo auxílio de um espírito da natureza. — Este método não implica necessariamente a posse de qualquer faculdade psíquica da parte do experimentador; basta que ele saiba como fazer com que qualquer habitante do mundo astral o sirva nas suas investigações. Isto pode ser feito quer por invocação, quer por evocação; isto é, o operador pode, ou persuadir, por meio de orações e ofertas, o seu auxiliar astral a dar-lhe o auxílio de que carece, ou obrigá-lo a fazê-lo pelo exercício de uma vontade altamente desenvolvida.

Este método tem sido muito empregado no Oriente (onde a entidade utilizada é em geral um espírito da natureza) e na velha Atlântida, onde os "senhores do rosto negro" empregavam para este fim uma variedade altamente especializada e requintadamente venenosa de elemental artificial. Por vezes obtém-se informação da mesma maneira nas sessões espíritas hodiernas, mas nesse caso o mensageiro empregado é mais freqüentemente um indivíduo recém-morto funcionando com maior ou menor liberdade no plano astral — ainda que por vezes seja um espírito da natureza amável, que se entretenha fazendo-se passar por um parente morto de qualquer indivíduo. Em qualquer dos casos, como disse, este método não é clarividente, mas sim mágico; e se aqui a ele nos referimos, é apenas para que o leitor não caia em confusão ao querer classificar sob qualquer das seções seguintes um ou outro caso do seu emprego. 

2. — Por meio de uma corrente astral. — É esta uma expressão que freqüentes vezes, e sem grande justeza, tem sido empregada em livros teosóficos de modo a abranger uma grande variedade de fenômenos, entre os quais aqueles que vou explicar. O que o operador, que adote este método, realmente faz, não é tanto pôr em movimento uma corrente na matéria astral, mas erguer uma espécie de telefone temporário por meio de tal corrente. 

É impossível dar aqui qualquer explicação detalhada da física astral, nem eu tenho para isso os conhecimentos necessários; basta, porém, que eu diga que é possível fazer na matéria astral um nítido fio de comunicação que sirva de fio telegráfico para transportar vibrações, por meio das quais se pode ver tudo o que está acontecendo na outra extremidade. Esse fio é estabelecido, entenda-se bem, não por uma projeção direta no espaço de matéria astral, mas por uma ação tal sobre uma linha (ou, antes, muitas Unhas) de partículas dessa matéria que as torne capazes de formar um fio condutor para vibrações do gênero que se deseja. 

Esta ação preliminar pode ser conseguida de duas maneiras — quer pela transmissão de energia de partícula a partícula, até que a linha ou fio esteja formado, ou pelo emprego de uma força de um plano superior que seja capaz de agir simultaneamente sobre toda a linha. É claro que este último método implica um desenvolvimento muito maior, visto implicar o conhecimento de (e o poder de usar) forças de um nível muito superior; de modo que o indivíduo que deste modo pudesse construir o seu fio não precisaria, para seu uso, de fio nenhum, visto que lhe seria possível ver de uma maneira muito mais fácil e completa empregando uma faculdade muito mais elevada. 

Mesmo a operação puramente astral, aliás muito mais simples, é difícil de descrever, ainda que não custe a executar. Pode dizer-se que é mais ou menos do gênero da magnetização dum varão de aço; porque consiste do que podemos dominar a polarização, por um esforço da vontade humana, de um número de linhas paralelas de átomos astrais indo desde o operador à cena que deseja observar. Todos os átomos sobre que assim se age ficam, enquanto a operação dura, com os seus eixos rigidamente paralelos uns aos outros, de sorte que formam uma espécie de tubo temporário pelo qual o clarividente pode espreitar. Este método tem a desvantagem de que o fio telegráfico é susceptível de ser desarranjado ou mesmo destruído por qualquer corrente astral bastante forte que aconteça atravessar-se-lhe no caminho; mas se o esforço inicial de vontade foi suficientemente nítido, é essa uma contingência que poucas vezes se dará. 

A vista de uma cena distante obtida por meio desta "corrente astral" tem fortes semelhanças com a visão através de um telescópio. As figuras humanas parecem em geral muito pequenas, como as sobre um palco distante, mas, apesar do seu pequeno tamanho, são tão nítidas como se estivessem perto. As vezes é possível, por este meio, não só ver, mas também ouvir, o que se está passando; mas, como na maioria dos casos tal não acontece, devemos considerar esse fenômeno antes como a manifestação de um poder adicional do que como necessariamente um corolário desta ordem de clarivisão. 

Notar-se-á que neste caso o vidente, em geral, não abandona o seu corpo físico; não há espécie alguma de projeção do seu corpo astral ou de qualquer parte de si em direção àquilo para que está olhando; ele simplesmente fabrica para si um telescópio astral temporário. Por isso está, até certo ponto, de posse das suas faculdades físicas mesmo no momento de examinar a cena distante; por exemplo, estará de posse da sua voz, de modo que lhe será possível descrever o que está vendo, no próprio momento em que o está vendo. A consciência do indivíduo está, de fato, ainda do lado de cá do fio. 

Este fato, porém, tem as suas limitações, como as suas vantagens, e essas limitações também em muito se parecem com as do indivíduo que emprega um telescópio no plano físico. O experimentador, por exemplo, não pode deslocar esse ponto de vista; o seu telescópio tem, por assim dizer, um certo campo de visão que não pode ser aumentado ou alterado; está olhando para a cena de determinado lado, e não pode de repente virá-la e ver como ela é do lado de lá. Se tem suficiente energia psíquica, pode largar esse telescópio e fabricar para si um outro, inteiramente novo, que lhe permita ver a cena dum modo já um pouco diferente; mas não é este um processo que seja natural que se adote na prática. 

Mas, objetar-se-á, o mero fato de ele estar empregando a visão astral deve dar-lhe o poder de ver a cena de todos os lados simultaneamente. Assim seria se ele estivesse empregando essa visão do modo normal sobre um objeto que lhe estivesse próximo — dentro do seu alcance astral, por assim dizer; mas a uma distância de centenas de milhares de quilômetros 30o caso toma uma feição muito diferente. 

A vista astral dá-nos a vantagem de uma nova dimensão, mas, ainda assim, ainda há o fato chamado "posição" nessa dimensão, e ele é, naturalmente, um fator importante em limitar o uso dos poderes do seu plano. A nossa vulgar visão tridimensional dá-nos o poder de vermos simultaneamente todos os pontos do interior duma figura bidimensional, como, por exemplo, um quadrado, mas, para o podermos fazer, esse quadrado tem de estar razoavelmente próximo dos nossos olhos; a mera dimensão a mais de nada servirá a um indivíduo em Londres se quiser examinar um quadrado em Calcutá. A vista astral, quando é limitada por ser dirigida por o que é, para todos os fins práticos, um tubo, sofre limitações quase idênticas às da vista física em circunstâncias análogas; ainda que, se for perfeitamente possuída, consiga revelar, mesmo a tão grande distância, as auras, e portanto as emoções e a maioria dos pensamentos, dos indivíduos observados. 

Há muita gente para quem este tipo de clarividência se torna muito mais fácil se tiverem à mão qualquer objeto físico de que se possam servir para ponto de partida do seu tubo astral — um foco conveniente para a sua vontade. Uma esfera de cristal é o mais vulgar e o mais cômodo desses focos, visto que tem a vantagem adiciona] de conter qualidades que excitam a atividade psíquica; mas outros objetos se empregam, aos quais teremos ocasião de nos referir quando viermos a tratar da clarividência semi-intencional. 

Tratando ainda desta forma de clarividência pela corrente astral, veremos que há "psíquicos" que não são capazes de a empregar salvo quando sob influência hipnótica. O que há de peculiar neste caso é que há duas variedades desses "psíquicos" — uma em que o indivíduo, uma vez assim liberto, consegue, por si, fazer o telescópio, e outra em que é o próprio magnetizador que constrói o telescópio, pelo qual o influenciado simplesmente espreita. Neste último caso, trata-se de um indivíduo que não tem suficiente vontade para construir, ele próprio, o tubo, e de um hipnotizador que, ainda que possuindo essa vontade, não é, por sua vez, clarividente, porque, se o fosse, seria capaz de espreitar pelo próprio telescópio sem precisar de auxílio. 

Por vezes, ainda que raramente, o tubo possui um outro dos atributos dum telescópio — o de aumentar o tamanho dos objetos sobre que é dirigido até que eles parecem de tamanho natural. Está claro que os objetos têm sempre de ser aumentados até certo ponto, pois, se o não fossem, seriam de todo invisíveis, mas, em geral, as dimensões são determinadas pelo tamanho do tubo astral, e toda a cena não passa de uma pequeníssima fita cinematográfica. Nos poucos casos em que as figuras aparecem de tamanho natural, o mais provável é que se trate dos primeiros indícios de uma faculdade inteiramente nova; mas quando isto acontece, é preciso uma observação cuidadosa para que se não confundam com os casos da seção que segue. 

3. — Pela projeção de uma forma de pensamento. — A capacidade de usar este método de clarividência implica um desenvolvimento um pouco mais avançado de que o último de que se tratou, visto para ele ser precisa uma certa dose de domínio no plano mental. Todos os estudiosos da Teosofia sabem que o pensamento toma uma forma, pelo menos no plano a que pertence, e, na grande maioria dos casos, também no plano astral; mas talvez não seja tão conhecido o fato de que, se um indivíduo pensar fortemente de que está num sítio qualquer, a forma assumida por esse pensamento será uma semelhança do próprio pensador que aparecerá no sítio de que se trata. 

Na sua essência, essa forma tem que ser composta de matéria do plano mental, mas em muitos casos rodear-se-ia também de matéria do plano astral, e, assim, muito mais se aproximaria da visibilidade. Há, de fato, muitos casos em que se torna visível à pessoa de quem se pensou — o que provavelmente acontece pela inconsciente influência mesmérica emanando do pensador inicial. Esta forma de pensamento, porém, nada levaria em si da consciência do pensador. Uma vez emanada dele, seria normalmente uma entidade inteiramente à parte — não, é certo, sem relação nenhuma com o seu criador, mas à parte dele pelo menos no que diz respeito à possibilidade de receber qualquer impressão. 

Este terceiro tipo de clarividência consiste, pois, do poder de manter tanta ligação com, e tanto poder sobre, uma forma de pensamento recém emitida que seja possível receber impressões por meio dela. As impressões que a forma receber serão, neste caso, transmitidas ao pensador — não, como antes, por meio do fio telegráfico astral, mas por vibração simpática. Num caso perfeito deste gênero de clarividência, é exatamente como se o pensador projetasse uma parte da sua consciência para dentro da forma de pensamento, e a usasse como uma espécie de vedeta, através da qual lhe fosse possível observar. Vê tão bem como se estivesse ele próprio no lugar onde está a sua forma de pensamento. 

As figuras para que estiver olhando parecer-lhe-ão de tamanho natural e próximas, em lugar de pequenas e a distância, como no caso anterior; e verá que lhe é possível deslocar, querendo, o seu ponto de vista. A clariaudição acompanha talvez menos freqüentemente este tipo de clarividência, do que o anterior, mas o seu lugar é até certo ponto tomado por uma espécie de percepção mental dos pensamentos e das intenções daqueles que estão sendo vistos. 

Visto que a consciência do indivíduo está ainda no corpo físico, ser-lheá possível, mesmo no momento em que estiver exercendo esta faculdade, ouvir e falar, tanto quanto lhe seja possível fazê-lo sem quebra 33da sua atenção. Logo que lhe falhe a concentração do seu pensamento, toda a visão desaparece, e ele terá que construir uma nova forma de pensamento antes que a possa continuar. Os casos em que este gênero de visão acontece com sensível relevo a indivíduos sem instrução são, como é de supor, mais raros do que com respeito ao tipo anterior, por causa da capacidade de domínio mental que é precisa e a natureza em geral mais sutil das forcas que entram em ação. 

4. — Viajando no corpo astral. - Trata-se agora de uma variedade inteiramente nova de clarividência, na qual a consciência do vidente já não permanece no seu corpo físico ou em íntima relação com ele, mas se transporta nitidamente à cena que está examinando. Ainda que tenha, sem dúvida, maiores perigos para o vidente não-instruído do que qualquer dos métodos já descritos, é, ainda assim, a melhor e mais completa forma de clarividência que lhe é possível, porquanto aquela forma imensamente superior, de que trataremos em quinto lugar, não é possível senão aos operadores altamente educados. 

Neste caso o corpo do indivíduo está ou em sono ou em transe, e os seus órgãos não são portanto utilizáveis enquanto a visão dura, de modo que toda a descrição do que se vê, e todas as perguntas a propósito de detalhes, têm de ficar para quando o viajante regressa ao plano físico. Mas a visão desta ordem é muito mais completa e mais perfeita; o indivíduo ouve, assim como vê, tudo quanto perante ele se passa e pode mover-se livremente, conforme queira, dentro dos limites larguíssimos do plano astral. Pode ver e estudar com vagar todos os outros habitantes desse plano, de modo que o grande mundo dos espíritos da natureza (do qual o tradicional país das fadas não é senão uma parte pequeníssima) lhe está patente, assim como aquele dalguns dos devas inferiores. 

Tem também a enorme vantagem de poder, por assim dizer, tomar parte nas cenas que se passam à sua vista, e de conversar livremente com essas várias entidades astrais, com quem tanto, de curioso e de interessante, há a aprender. Se, além disso, pode aprender a materializar-se (o que não apresenta grande dificuldade, uma vez que ele saiba como isso se faz), poderá tomar parte em acontecimentos físicos ou conversas passadas a grande distância, e mostrar-se a um amigo ausente, sempre que assim queira. 

Tem, além disso, a faculdade de poder procurar o que deseja. Por meio das outras variedades de clarividência, que antes descrevemos, ele realmente só poderia encontrar um lugar ou uma pessoa se já os conhecesse, ou então pondo-se en rapport com eles pelo contato com qualquer cousa fisicamente com eles relacionada, como na psicometria. É verdade que no terceiro dos métodos, que descrevemos, é possível um certo movimento, mas o processo é lento e difícil, exceto para distâncias muito pequenas. 

Pelo uso do corpo astral, porém, um indivíduo pode deslocar-se livre e prontamente em qualquer direção, pode (por exemplo) encontrar sem dificuldade um lugar apontado num mapa, mesmo sem prévio conhecimento do lugar ou razão especial para estabelecer uma ligação com ele. Pode também com facilidade subir ao ar de modo a obter uma vista de conjunto do país que está examinando, de modo a saber a sua extensão, o contorno das suas costas, ou o aspecto geral da sua paisagem. Na verdade, de todas as maneiras o seu poder e a sua liberdade são muito maiores quando emprega este método do que em qualquer dos casos anteriores. 

Um bom exemplo da plena posse desta faculdade é citada, reportando--se ao escritor alemão Jung Stilling, por Mrs. Crowe no seu livro O Lado Noturno da Natureza (p. 127). A história diz respeito a um vidente que se diz ter residido nos arrabaldes de Filadélfia, na América. Os seus hábitos eram solitários e reservados; era grave, bondoso e de índole religiosa, nada se dizendo contra o seu caráter, salvo que tinha a reputação de estar de posse de alguns segredos que não eram considerados como sendo de todo lícitos. Dele se contavam muitas histórias extraordinárias, e entre elas a seguinte: 

"A esposa de um comandante de navios (o qual tinha ido em viagem à Europa e à África, e de quem ela havia tempos não recebera notícias), apoquentada com esse fato, decidiu dirigir-se a esse indivíduo. Tendo ouvido o que ela lhe contou, ele pediu-lhe que o desculpasse um momento, ao fim do qual lhe traria a informação que ela desejava. Dito isto, entrou para um quarto interior e ela sentou-se a esperar que ele voltasse; como, porém, se demorasse mais do que ela esperava, ela, na sua impaciência julgando que ele se esquecera, aproximou-se da porta para o outro quarto e espreitou por qualquer greta. Foi grande a sua surpresa quando o viu estendido sobre um sofá, imóvel como se estivesse morto. Achando bom não o interromper, sentou-se outra vez e esperou que ele voltasse. Ao voltar, ele disse-lhe que o marido lhe não tinha podido escrever por várias razões, que enumerou, mas que estava ao momento num café em Londres e dentro em pouco regressaria à América. 

"O comandante chegou de aí a pouco, e, como a senhora lhe ouvisse dar para o seu prolongado silêncio precisamente as mesmas causas que o indivíduo tinha indicado, ficou com um grande desejo de averiguar a verdade do resto da informação que lhe havia sido dada. Isto conseguiu, porque o capitão, mal pôs a vista em cima do mago, disse que já o tinha visto um certo dia, num café de Londres, onde ele lhe tinha dito que a sua esposa estava muito inquieta a seu respeito, ao que ele (comandante) tinha respondido dando as razões por que não escrevera e acrescentando que em breve embarcaria para a América. Depois perdera de vista o estranho, no meio da multidão, e nada mais sabia a seu respeito."

Não temos agora, é claro, maneira alguma de saber que razões tinha Jung Stilling para crer na verdade desse caso, ainda que ele se declare plenamente satisfeito com as fontes onde o colheu; mas tanta cousa parecida se tem dado que não há razão para duvidar da sua autenticidade. O vidente, deve, porém, ter desenvolvido a sua faculdade, ou por si, ou em qualquer outra escola que aquela donde se deriva a informação teosófica; porque no nosso caso há uma regra bem explícita proibindo expressamente aos alunos que dêem desse poder qualquer manifestação que possa ser nitidamente verificada dum lado e doutro, como o caso citado, e constituir aquilo a que se chama um "fenômeno". Que esta regra é bem prudente, prova-o, perante todos quantos conheçam alguma cousa da história da nossa Sociedade, o resultado desastroso que produziu uma pequeníssima e temporária quebra dela. 

Citei alguns casos modernos, quase paralelos ao que se citou, no meu livrinho sobre Auxiliares Invisíveis. O caso de uma senhora que conheço muito bem, e freqüentemente assim aparece a amigos ausentes, é citado pelo sr. Stead em Histórias Verdadeiras de Espectros (p. 27); e o sr. Andrew Lang relata, no seu livro Sonhos e Espectros (p. 89), como o sr. Cleave, então em Portsmouth, apareceu intencionalmente duas vezes a uma senhora que estava em Londres, assustando-a bastante. Há um grande número de testemunhos sobre o assunto, como pode verificar quem o quiser estudar a sério. 

A realização de visitas astrais intencionais parece muitas vezes tornarse possível, quando os princípios se estão desligando com a aproximação da morte, a pessoas que seriam incapazes de tal fazer em qualquer outra ocasião. Há ainda mais exemplos desta classe do que da outra; resumo aqui um, muito bom, citado pelo sr. Andrew Lang, à p. 100 do livro acima citado — um exemplo de que o autor diz que "não há muitas histórias que tenham em seu favor um testemunho tão completo".

"Mary, esposa de John Goffe, de Rochester, tendo caído de cama com uma longa doença, foi transportada para casa de seu pai, em West Mailing, a umas nove milhas de distância da sua própria casa. 

"No dia antes de morrer tornou-se impacientemente desejosa de ver os seus dois filhos, que tinha deixado em casa, ao cuidado de uma ama. Mas estava doente demais para que a pudessem transportar, e entre a uma hora e as duas da madrugada caiu em transe. Uma viúva de apelido Turner, que estava velando essa noite ao pé do leito, diz que os seus olhos estavam abertos e fixos e o queixo caído. Mrs. Turner pousou-lhe a mão sobre a boca, mas não pôde sentir respiração alguma. Julgou-a num ataque, nem tinha a certeza se ela estava viva ou morta. 

"Na manhã seguinte a moribunda disse à mãe que tinha estado em casa, com os filhos, explicando: "Estive com eles a noite passada, enquanto dormia". 

"A ama, que estava em Rochester, uma viúva chamada Alexander, afirma que um pouco antes das duas horas da madrugada viu a imagem da dita Mary Goffe sair do quarto ao lado (onde a mais velha das duas crianças estava a dormir), pois que a porta entre os dois quartos ficara aberta, e demorar-se perto de um quarto de hora à beira do leito dela (ama), onde estava, a seu lado, dormindo, a criança mais nova. Os olhos moviam-se e a boca também, mas não disse nada. A ama acrescenta que estava perfeitamente acordada; já era dia, pois que era esse um dos dias mais longos do ano. Sentou-se na cama e olhou fixamente para a aparição. Nessa altura ouviu o relógio da ponte dar duas horas, e pouco depois dirigiu-se à imagem, dizendo: "Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, o que és tu?" Então a aparição afastou-se e desapareceu; a ama vestiu-se e seguiu, mas não pôde ver o que foi feito da imagem." 

A ama parece ter ficado mais assustada com o desaparecimento da imagem, do que com a presença dela, porque depois disto teve medo de ficar dentro de casa, e passou o resto do tempo até às seis horas a passear fora da porta para um lado e para o outro. Quando os vizinhos acordaram, ela contou-lhes tudo, e eles, é claro, disseram que ela o tinha sonhado; ela, como é natural, repudiou calorosamente essa idéia, mas não pôde conseguir que se desse algum valor às suas palavras senão quando chegou a notícia do que se tinha passado do outro lado, em West Mailing, e então houve quem pensasse que talvez a história não fosse inteiramente um sonho. 

O que há de notável neste caso é que à mãe foi preciso passar do sono vulgar para a condição, mais profunda, do transe antes que pudesse conscientemente visitar os filhos; há, porém, vários casos análogos que é possível respigar entre o vasto número deles que se encontra nos livros que versam tal assunto. 

Dois outros casos de tipo exatamente semelhante — em que uma mãe moribunda, desejando ardentemente ver os seus filhos, cai num sono profundo, visita-os e regressa a si, dizendo que os visitou — são contados pelo Dr. F. G. Lee. Em um deles a mãe, moribunda no Egito, aparece aos filhos em Torquay, e é vista nitidamente, e em plena luz do dia, por todos os cinco filhos e também por uma criada que os acompanhava. (Vislumbres do Sobrenatural, vol. II, p. 64.) No outro uma senhora quaker, moribunda em Cockermouth, é vista e reconhecida em pleno dia em Settle pêlos seus três filhos, sendo o resto da história mais ou menos semelhante ao da outra (Vislumbres no Crepúsculo, p. 94). Ainda que estes casos sejam menos conhecidos do que o de Mary Goffe, a evidência em favor da sua autenticidade parece ser tão boa como naquele, como se verá pêlos testemunhos aduzidos pelo reverendo autor dos livros de onde os citamos. 

O homem que possui completamente este quarto tipo de clarividência tem ao seu dispor muitas e grandes vantagens, mesmo além das que já referimos. Não só pode visitar sem trabalho ou despesa todos os 'lugares famosos e belos da terra, mas, se é um erudito, considerai o que vale para ele o poder de visitar todas as bibliotecas do mundo! Que prazer não deve dar ao indivíduo de mentalidade científica o poder assistir a tantos dos processos da química secreta da natureza, ou ao filósofo o ver revelado a seus olhos muito e muito mais, do que antes sabia, dos mistérios da vida e da morte! Para ele aqueles que saíram deste plano não são já mortos, mas vivos e ao seu alcance durante muito tempo ainda; para ele muitas das concepções religiosas são já matéria, não de fé, mas de conhecimento. E, além de tudo, ele pode unir-se ao exército dos auxiliares invisíveis e ser útil em grande escala. Sem dúvida que a clarividência, mesmo quando limitada ao plano astral, é um 'grande benefício para o indivíduo. 

Por certo que tem também os seus perigos, sobretudo para os nãoinstruídos, o perigo das entidades malignas de várias espécies, que podem assustar ou atacar aqueles que se deixam perder a coragem de as encarar ousadamente; o perigo de erros de toda a natureza, de conceber mal e interpretar mal aquilo que se vê; e, maior do que todos, o perigo de criar a vaidade desse poder e julgar impossível o erro por meio dela. Mas uma pequena dose de bom senso e de experiência devem salvar o indivíduo destes escolhos. 

5. — Viajando no corpo mental. — Trata-se, simplesmente, de uma forma mais alta, e, por assim dizer, glorificada, do tipo que acabamos de descrever. O instrumento empregado já não é o corpo astral, mas o mental — um instrumento, portanto, pertencente ao plano mental, e tendo em si todas as potencialidades do maravilhoso sentido desse plano, tão transcendente na sua ação e contudo tão impossível de descrever. Um indivíduo funcionando neste corpo deixa atrás o seu corpo astral, junto com o físico, e se por qualquer razão deseja mostrar-se sobre o plano astral, não manda buscar o seu corpo astral, mas, apenas por um simples ato de vontade, materializa-se um para o seu fim temporário. A uma materialização astral dessas chamam às vezes a mâyâvirüpa, e para a formar a primeira vez é em geral preciso o auxílio dum Mestre qualificado. 

As enormes vantagens dadas pela posse deste poder são a capacidade de entrar na glória e na beleza da terra superior da felicidade, e a posse, mesmo quando operando no plano astral, do sentido mental, muito mais compreensivo, que revela ao estudioso tantas extraordinárias visões de conhecimento, tornando o erro, pode-se dizer que impossível. Este vôo altíssimo, porém. é possível apenas ao indivíduo instruído, visto que só depois de uma instrução especial é que um indivíduo no atual estádio evolutivo da humanidade pode aprender a empregar o seu corpo mental como instrumento. 

Antes de abandonarmos o assunto da clarividência plena e intencional, será bom dedicar algumas palavras a responder a algumas perguntas, que em geral lembram aos estudiosos, sobre as limitações dessa faculdade. Ao vidente será possível, muitas vezes se pergunta, encontrar qualquer pessoa com quem deseje comunicar, esteja ela viva ou morta? 

A resposta a esta pergunta terá de ser uma afirmativa condicional. Sim, será possível encontrar qualquer pessoa se o experimentador puder, dum modo ou doutro, colocar-se en rapport com essa pessoa. Seria inútil lançar-se vagamente nos espaços à procura dum estranho entre os milhões que nos cercam, sem ter qualquer indicação para o encontrar; mas, verdade seja, uma indicação pequeníssima é em geral quanto basta.

Se o clarividente sabe qualquer cousa do indivíduo que procura, não terá dificuldade em o encontrar, porque cada indivíduo tem aquilo a que se pode chamar uma nota musical que o caracteriza — uma nota que é a expressão dele como conjunto, produzida talvez por uma espécie de média dos graus de vibração de todos os seus instrumentos diferentes nos seus respectivos planos. Se o operador sabe descobrir essa nota e vibrá-la, ela fará, por vibração simpática, com que a atenção do indivíduo, esteja ele onde estiver, seja atraída e acordará nele uma resposta imediata. 

Que o homem esteja vivo ou recém-morto não fará para o caso diferença nenhuma, e a clarividência da quinta classe encontrá-lo-ia imediatamente mesmo entre os inúmero., milhões no mundo celestial, se bem que nesse caso o indivíduo procurado não teria consciência de o estarem observando. Claro está que um vidente cuja consciência não esteja mais alta de que o plano astral — que empregue portanto um dos primeiros métodos de vidência — não será capaz de encontrar um indivíduo no plano mental; mas mesmo esse saberá ao menos que o indivíduo está nesse plano, pelo simples fato de a vibração da nota até ao nível astral não produzir resposta nenhuma. 

Se o indivíduo procurado for inteiramente estranho ao operador, este precisará de qualquer coisa relacionada com ele para o pôr na pista — um retraio, uma carta por ele escrita, um objeto que lhe pertenceu e se ache impregnado do seu magnetismo pessoal; qualquer destas cousas servirá nas mãos dum vidente experiente. 

Torno a lembrar que não se deve crer que os alunos que aprenderam a usar esta arte têm a liberdade de estabelecer uma espécie de escritório de informações pelo qual se possa comunicar com parentes perdidos ou mortos. Um recado dado deste lado para um desses poderá ou não ser passado para ele, conforme as circunstâncias, mas, mesmo que fosse, o mais provável é que se não receba resposta, visto que então a transação entraria na categoria de um fenômeno — isto é, qualquer cousa que se podia provar no plano físico ter sido um ato de magia. 

Uma outra pergunta, que muitas vezes surge, é se no ato de visão psíquica, há qualquer limitação quanto a distância. A resposta parece que deve ser que não deve haver limite senão o dos respectivos planos. Devemos não esquecer que os planos astral e mental da nossa terra são tão nitidamente seus como a sua atmosfera, ainda que se estendam muito mais para além dela, mesmo no nosso espaço tridimensional do que o próprio ar. Por isso a passagem para, ou a visão detalhada de, outros planetas não seria possível a qualquer sistema de clarividência relacionado com estes planos. É na verdade perfeitamente possível e fácil ao indivíduo que elevou a sua consciência até ao plano búdico passar para qualquer dos outros globos pertencentes à nossa cadeia de mundos, mas isso já não pertence ao assunto de que tratamos. 

Ainda assim, uma boa dose de informação adicional acerca de outros planetas pode ser obtida pelo uso das faculdades clarividentes que descrevemos até agora. E possível tornar a vista enormemente mais clara passando para fora das constantes perturbações da atmosfera terrestre, e também não é difícil aprender como investir-se de um poder de aumentar muito elevado, de modo que mesmo pela clarividência usual se pode obter uma quantidade de conhecimentos astronômicos muito interessantes. Mas, no que respeita a esta Terra e ao que imediatamente a cerca, pode dizer-se que não há limites.