Materialização e Repercussão

Enviado por Estante Virtual em dom, 01/22/2012 - 03:26

Ao ler uma história como esta, os estudiosos muitas vezes perguntam se o auxiliar invisível está perfeitamente seguro no meio destas cenas de grande risco — se, por exemplo, este rapaz que foi materializado para salvar outro de um incêndio não correu também risco — se o seu corpo físico não teria sofrido de qualquer maneira por repercussão se a sua forma materializada tivesse atravessado as chamas ou caído da saliência elevada em cuia extremidade andou tão despreocupadamente. De fato, visto que sabemos que em muitos casos a relação entre uma forma materializada e um corpo físico é suficientemente próxima para produzir repercussão, não poderia esta ter-se dado neste caso?

Ora, este assunto da repercussão é extremamente abstruso e difícil, e não estamos de modo algum em situação de poder explicar os seus notabilíssimos fenômenos; de resto, para compreender bem o assunto, seria talvez necessário que compreendêssemos as leis da vibração simpática sobre mais planos do que um. Em todo o caso, sempre sabemos, pela observação, alguma das condições que permitem a sua ação e algumas que 55absolutamente a excluem, e parece-me que temos razões para asseverar que no caso que se contou era de todo impossível.

Para compreendermos por que devemos primeiro não esquecer que há pelo menos três variedades bem definidas de materialização, como deve saber todo o indivíduo que tem uma experiência razoavelmente completa do Espiritismo. Não me preocupa agora explicar como é que estas variedades respectivamente se produzem; afirmo apenas o fato indubitável de que existem.

1. — Há a materialização que, conquanto tangível não é visível à vista física normal. Desta natureza são as mãos invisíveis que tantas vezes nos apertam um braço ou nos passam pelo rosto numa sessão, que, às vezes, levam pelo ar objetos físicos ou dão pancadas na mesa — muito embora, é claro, qualquer destes dois últimos fenômenos possa facilmente conseguir-se sem que seja preciso a existência da mão materializada.

2. — Há a materialização que, conquanto visível, não é tangível — a forma de espírito que a nossa mão atravessa como se fosse simplesmente o ar. Em alguns casos esta variedade é patentemente nevoenta e impalpável mas há outros em que o seu aspecto é tão completamente normal, que sua tangibilidade não levanta dúvidas senão quando alguém tenta agarrá-la.

3. — Há a materialização perfeita, que é ao mesmo tempo visível e tangível — que não só tem o aspecto exterior do vosso amigo morto, mas que vos aperta a mão com a pressão e o gesto que tão bem conheceis.

Ora, ao passo que há bastantes fatos para demonstrar que a repercussão se dá em certas circunstâncias, ao caso desta terceira espécie de materialização, não é de modo algum certo que isso se dê no caso das outras variedades. No caso do auxiliar Cyril é provável que a materialização não tivesse saído da terceira espécie, visto que há sempre um grande cuidado em não gastar mais energia do que a que é absolutamente necessária para o fim que se tem em vista, e é evidente que se gasta menos energia na produção de qualquer das formas menos completas a que chamamos a primeira e segunda classes. O mais provável é que só o braço, com que Cyril segurou o seu companheiro, era sólido, e que o resto do seu corpo, por natural que parecesse, resultaria muito menos tangível se se tivesse feito a experiência.

Mas, à parte esta probabilidade, há ainda um outro ponto a considerar. Quando se dá uma plena materialização, quer de um vivo, quer de um morto, tem de se arranjar para isso matéria física de uma espécie qualquer. Numa sessão espírita essa matéria é obtida tirando-a abundantemente ao duplo etérico do médium — e às vezes ao seu próprio corpo físico, pois que casos há em que o peso do médium tem diminuído ao darem-se manifestações desta espécie.

Este método é empregado pelas entidades dirigentes da sessão simplesmente porque, quando um médium está acessível, é esse o meio mais fácil de conseguir uma materialização, e a conseqüência é que passa a haver a mais próxima das ligações entre esse médium e o corpo materializado, de sorte que o fenômeno a que (ainda que imperfeitamente o compreendamos) chamamos repercussão se dá na sua forma mais nítida. Se, por exemplo, se esfregar giz nas mãos do corpo materializado, esse giz aparecerá depois nas mãos do médium, ainda que ele tenha estado sempre fechado num cubículo qualquer, em circunstâncias que excluam em absoluto a possibilidade de fraude. Se qualquer pancada for dada na forma materializada, essa pancada será exatamente reproduzida na parte correspondente do corpo do médium; e, às vezes, qualquer alimento que a forma-espírito tenha tomado será descoberto no corpo do médium — isso aconteceu pelo menos uma vez, na minha própria experiência.

Já não seria nada assim, porém, no que temos estado a descrever. Cyril estava a uma distância de alguns milhares de milhas do seu corpo físico adormecido, e seria portanto inteiramente impossível ao seu amigo tirar desse corpo a matéria etérica precisa, e as próprias regras, sob as quais todos os alunos dos grandes Mestres da Sabedoria executam o seu trabalho de auxiliar os homens, por certo que o inibiriam, mesmo para o mais nobre dos fins, de impor esse trabalho ao corpo de outrem. Além disso, seria inteiramente desnecessário, porque o método, muito menos perigoso, invariavelmente empregado pelos auxiliares, quando a materialização parece desejável, estaria ao seu alcance — a condensação do éter do ambiente ou mesmo do ar físico, da matéria precisa para tal fim. Este ato, conquanto fora do alcance de qualquer das entidades que geralmente se manifestam numa sessão, não apresenta dificuldade nenhuma a um estudioso da química oculta.

Mas repare-se na diferença quanto ao resultado obtido. No caso do médium temos uma forma materializada na mais próxima das relações com o corpo físico, construída da sua substância, e capaz de produzir todos os fenômenos de repercussão. No caso do auxiliar temos na verdade uma reprodução exata do corpo físico, mas criada por uma força mental em matéria inteiramente estranha a esse corpo, e tão pouco capaz, portanto, de sobre ele agir por repercussão como o seria uma estátua de mármore do mesmo indivíduo.

Assim é que uma passagem através das chamas, ou uma queda de uma janela alta, não representavam nada a temer para o jovem auxiliar, e que, em uma outra ocasião (como adiante se lerá), um outro membro do grupo, apesar de materializado, pôde, sem inconvenientes para o seu corpo físico, ir ao fundo num navio que naufragou.

Em ambos os casos do seu trabalho, que acima se citaram, ter-se-á notado que o menino Cyril não era capaz de materializar a si próprio, e que essa operação teve de ser realizada por um amigo adulto. Há uma outra das suas experiências que é digna de se contar, porque nos mostra um caso em que, pela intensidade da compaixão e determinação da vontade, ele conseguiu deveras mostrar-se — um caso parecido com esse outro, que já se relatou, da mãe cujo amor de qualquer forma lhe tornou possível manifestar-se para salvar a vida dos seus filhos.

Por inexplicável que pareça não há dúvida nenhuma sobre a existência na natureza deste estupendo poder da vontade sobre a matéria de todos os planos, "de modo que, logo que o poder seja suficientemente grande, pode dizer-se que não há resultado que não possa conseguir-se, pela sua ação direta, mesmo que não haja da parte do operador conhecimento ou mesmo pensamento de como o exercício dessa vontade produz esse resultado. Há casos bastantes para que saibamos que esse poder mantém o seu valor no caso de materialização, ainda que essa seja geral, uma arte que tem de ser aprendida como qualquer outra. Por certo que um indivíduo vulgar no plano astral é tão pouco capaz de se materializar sem ter aprendido como isso se faz, do que de tocar violino neste plano sem o ter aprendido; mas há casos excepcionais como se verá pela narrativa seguinte.