O Aproveitamento do Karma

Enviado por Estante Virtual em sab, 12/17/2011 - 21:45

Uma vez resolvido a construir o seu futuro o homem reconhece que moldando o caráter, prepara e compõe o seu destino. É ele o senhor da situação, um ser vivo, ativo, senhor da sua vontade, capaz de agir sobre as circunstâncias e sobre si mesmo. Habituado desde há muito a cumprir as grandes leis morais, as que regulam a conduta da humanidade, estabelecidas pêlos Instrutores Divinos, nascidos de idade em idade, compreende agora que as bases dessas leis são os princípios fundamentais da Natureza e que a moralidade é apenas a ciência aplicada à conduta do homem; e vê que, na vida quotidiana, é extremamente fácil neutralizai os resultados maus provenientes de ações más, para o que basta aplicar no mesmo ponto uma força de igual intensidade e de sentido contrário, isto é. dirigido para o bem. Um indivíduo qualquer ,dirige contra outro um pensamento mau; o segundo podia defender-se desse pensamento servindo-se de um de igual natureza^ e, nesse caso, as duas formas-pensamentos fundir-se-iam numa só, como duas gotas d'água, e uma fortalecia e intensificava a outra; mas sabe que existe o Karma, e opõe à força da compaixão, por exemplo, e reduz a outra a pó; a força pulverizada já não pode ser animada pela vida elemental; a vida volta ao seu foco, a forma desintegrase, a compaixão destrói-Ihe o poder para o mal e "o ódio cessa com o amor".

Estas enganadoras formas de mentira andam no mundo astral; o homem, que sabe, envia contra elas formas de Verdade; a pureza expulsa a impureza e a caridade destrói a avareza egoísta. À medida que o saber aumenta, esta ação exerce-se diretamente e a tempo; o pensamento caminha para um fim com uma intenção definida e voa nas asas da vontade poderosa. Desta forma, o mau Karma é apanhado pelo seu próprio princípio, e nada resta que possa estabelecer um laço kármico entre aquele que lançou o dardo traiçoeiro e o que o volatizou com um pensamento de perdão.

Os Instrutores Divinos que falaram com autoridade sobre o dever de combater o mal com o bem, baseavam os seus ensinamentos no conhecimento que tinham da lei; os discípulos que lhes obedecem, sem perceber inteiramente a base científica do preceito, tendem por vezes a intensificar inconscientemente o mau Karma, respondendo ao ódio com o ódio; mas os que sabem, destroem refletidamente as formas do mal, porque compreendem bem os fatos sobre os quais os Mestres sempre basearam o ensino, e ferem de esterilidade as sementes do mal, impedindo assim uma colheita futura de sofrimento.

Chegado a um grau relativamente avançado — comparado com o grau em geral atingido peia média da humanidade que lentamente se deixa ir na corrente - o homem já não se contenta com a construção do caráter, nem tampouco com o aproveitamento, para utilidade própria, das formas-pensamentos que encontra no seu caminho; quer mais. e começa a ver o passado e, por ele, a medir o presente, partindo das causas kármicas para os seus efeitos. Ganha assim a faculdade de modificar o presente, servindo-se conscientemente das forças que possam contrabalançar outras já em ação. A consciência fornece-lhe a capacidade de utilização da lei com tanta certeza e precisão como os homens de ciência o fazem nos diferentes reinos da Natureza.

Paremos um instante neste ponto e observemos as leis do movimento. Um corpo solicitado por uma força move-se num certo sentido; se outra força de direção diferente ativa sobre ele, o movimento do corpo passa a produzir-se numa nova direção que será a resultante das duas impulsões.

Não há perda de energia, mas uma parte da força inicial é empregada em contrabalançar a nova, e a linha segundo a qual o corpo se move não é, nem a da primeira, nem a da segunda força, mas uma linha intermediária que participa das duas direções. Um físico pode calcular com precisão o ângulo sob o qual é preciso impulsionar um corpo em movimento para lhe fazer seguir uma determinada direção, e se o corpo estiver fora do seu alcance, pode enviar na sua direção uma dada força, de velocidade calculada, que o vá ferir sob um dado ângulo e o faça desviar do seu primeiro caminho para o desejado.

E nisto tudo não há a menor violação da lei; há apenas a utilização dessa lei pelo saber, que levou à conquista das forças naturais que a vontade humana força à obediência e emprega para a realização dos seus fins.

Aplicando este mesmo princípio ao: aproveitamento do Karma, vemos imediatamente que não há a menor violação da lei — que não se contraria a ação do Karma — quando um homem, servindo-se do seu conhecimento, introduz-lhe; modificações. Não faremos mais do que nos servir de uma força kármica para modificarmos resultados kármicos e, mais urna vez, é pela obediência que o homem faz a conquista da natureza.

Suponhamos agora que um estudante já adiantado, ao lançar um olhar para o passado, veja as linhas de um Karma anterior convergirem para um centro de natureza duvidosa; nesse caso, não tem mais que provocar a intervenção de uma nova força para assim modificar o acontecimento, cujo resultado final há de ser a resultante de todos as forças que contribuíram para a sua geração e maturação. Mas para uma operação deste género é preciso conhecimento; não basta o poder de visão do passado, a habilidade em traçar as linhas que o ligam ao presente; é também preciso saber calcular com precisão a influência proveniente da nova força introduzida por ele e, sobretudo, os efeitos que irá produzir essa resultante, considerada agora com força inicial. Sabendo bem como haver-se, pode, por esta maneira, diminuir ou mesmo destruir os resultados do mal que tenha causado no passado, espalhando forças benéficas na sua corrente kármica; não pode destruir nem desfazer o passado, mas no que diz respeito aos efeitos futuros, tem ao seu alcance modificá-los ou desviá-los pela aplicação de forças novas que ele faz atuar como causas na produção desses efeitos. E nisto tudo limita-se a modificar a lei, tal qual o homem de ciência que a uma força opõe outra, e que, embora impotente para destruir um átomo de energia, pode, contudo, por meio de um simples cálculo de ângulos e de velocidade, obrigar um corpo a seguir um determinado movimento. Compreende-se igualmente que se possa também acelerar ou retardar o Karma e introduzir-lhe modificações, utilizando a ação do meio em que ele se forma.

Não será demais apresentar a mesma coisa sob outro aspecto, porque a concepção é importantíssima e altamente fecunda. Quanto maior é o conhecimento adquirido, tanto maior é a facilidade de nos desembaraçarmos do Karma do passado. Todas as causas, à medida que os seus efeitos se preparam, vêm ao campo visual da alma próxima de liberação, visto que, nesta ocasião solene, ela lança um olhar retrospectivo sobre os séculos lentamente percorridos. E assim obtém uma clara visão da maneira como os seus laços se formaram e das causas que pôs em movimento, e destas separa as que tiveram ação, as que se esgotaram e as que ainda estão em via de realização.

E assim como olha para trás, pode também olhar para a frente e ver os prováveis efeitos dessas causas, de forma que encarando o futuro, vê os efeitos a produzir, e estudando o passado, vê as causas que hão de vir a produzir tais efeitos. Não repugna em nada admitir que, se na natureza física o conhecimento de certas leis nos permite prever certos resultados e saber a lei que os produz, num plano mais elevado possamos imaginar um estado de Alma que nos permita ver as causas kármicas que ela deixou em movimento nas vidas anteriores, e os efeitos kármicos em cujo seio terá de trabalhar no futuro.

Com tal conhecimento das causas e da visão dos respectivos resultados, é possível determinar a intervenção de novas causas neutralizadoras desses efeitos e preparar para o futuro efeitos que se desejem; basta saber utilizar a lei, confiando cegamente na sua invariabilidade e na sua imutabilidade, e, calculando com cuidado as forças postas em jogo. É uma simples questão de cálculo.

Suponhamos que se puseram em movimento vibrações de ódio; para as aniquilar, para as impedir de agir no presente e no futuro basta opor-lhes vibrações de amor. Não podemos nós — lançando no espaço, sucessivamente, duas ondas sonoras, de modo que as vibrações da parte mais densa de uma correspondam à parte menos densa da outra — obter silêncio por interferência? Pois, o mesmo sucede nas regiões superiores, onde é possível por meio de vibrações de amor e de ódio, empregadas com conhecimento de causa e sob a ação consciente da vontade, pôr termo a causas kármicas e obter assim o equilíbrio, que quer dizer libertação.

Porém este conhecimento está fora do alcance da maioria dos homens e, para remediar essa falta, eis o que pode fazer quem quer utilizar a Ciência da Alma: tomar o testemunho de homens experientes no assunto, seguir os preceitos de moral dos grandes Instrutores religiosos do mundo e, por uma obediência cega a esses preceitos — todos eles mais ou menos intuitivos — chegar a realizar o mesmo que diretamente pode realizar o saber profundo e consciente, pois a obediência a um Mestre pode cooperar na libertação, conseguindo-se, assim, ainda que por um caminho mais longo, o mesmo que se poderia conseguir com o conhecimento.

Aplicando sempre estes princípios, o estudante começará a convencer-se de quanto a ignorância atrasa o aperfeiçoamento do homem, e do importantíssimo papel que o conhecimento desempenha na evolução humana. Os homens vivem ao acaso porque se deixam cegar. Aquele que quiser fazer o seu caminho com mais rapidez que o comum dos mortais e assim alcançar uma grande dianteira à multidão preguiçosa "como o cavalo de corridas deixa atrás o rocinante", precisa ao mesmo tempo de sabedoria e de amor, tanto saber como dedicação. Não será forçado a desgastar lentamente as malhas das cadeias forjadas num passado remoto; pode limá-las rapidamente e, apesar de levar menos tempo, ficar tão livre delas, como se a sua libertação fosse devida ao trabalho lento da ferrugem.