O Sacramento do Matrimônio

Enviado por Mauricio em seg, 11/19/2012 - 03:03
Escrevi meses atrás um artigo sobre o sacramento do batismo. Vou agora falar mais um pouco sobre os sacramentos em geral, e a respeito do sacramento do matrimônio em particular.
 
No artigo anterior foi falado um pouco a respeito do que é um sacramento, portanto vou colocar o que já está lá apenas de forma resumida. 
 
Foi visto que um sacramento é uma forma de receber uma graça espiritual, e que de forma geral, depende de 3 fatores: uma "fórmula de autoridade", um "sinal de autoridade" e algum foco material. Através destas coisas, o sacramento busca fortalecer o vínculo entre o mundo material e o imaterial. Além disso, o conhecimento dos aspectos esotéricos do rito executado é importante para intensificar, e em alguns casos até mesmo propiciar, esse vínculo ou a "graça concedida".
 
Elaborando um pouco esse tema, são elucidativos os ensinamentos do Pe. Maurílio Teixeira-Leite Penido, o mais famoso teólogo tomista brasileiro. No livro "O Mistério dos Sacramentos", Penido diz que um sacramento é
o símbolo de uma realidade sagrada e a forma (ou sinal) da graça invisível
Mais importante que isso, a partir dessa afirmação ele mostra que a própria Humanidade do Salvador é o "Sacramento" por excelência; o "Sacramento" primordial, de onde todos os outros derivam.
 
Por sucessão apostólica, Cristo diflui em seu "Corpo Místico" (a Igreja) a fonte de graça que existe em toda a plenitude na Humanidade do Verbo.
o Sumo Sacerdote quis prolongar e perpetuar no seu Corpo místico essa função sacerdotal e, para esse fim, reitera, na Igreja, aqueles seus gestos santificadores que divinizavam os homens. Esses gestos santificadores de Cristo no seu Corpo místico são o que comumente entendemos por Sacramentos: ritos sagrados, significando e produzindo a graça ou vida divina, nas almas.
E prossegue:
Temos assim uma sequencia teológica rigorosa:
a) o Verbo divino se humana para entrar, por sua carne, em contato vivificador com a humanidade.
b) os gestos santificadores de Cristo-Homem permitem às almas esse contato com a santidade manada de Cristo-Deus.
c) longe de ser efemeros, tais gestos santificadores permanecem entre nós, prolongam-se pelos séculos fora, sob forma de gestos do Corpo místico de Cristo: os sete Sacramentos.
É pois na Igreja, Corpo místico de Cristo, pelos Sacramentos da Igreja, que se realiza hoje, principalmente, o contato das almas com o Verbo humanado.
Besant nos indica em relação ao matrimônio, da mesma forma que o fez com o batismo, que a forma (na figura da "fórmula de autoridade" e do "gesto de autoridade") é essencial para a consecução do sacramento. Mais especificamente, no livro "Cristianismo Esotérico" encontramos que:
O objeto material é o Anel, o círculo, símbolo da eternidade. A "fórmula de autoridade" é a expressão tradicional: "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo". O "sinal de autoridade" é a união das mãos, simbolizando a união das vidas
Penido vem ao encontro dessa afirmação:
Leão XIII, por exemplo, no decreto de nulidade das ordenações anglicanas, pondera que a "matéria" do Sacramento da Ordem é a imposição das mãos. Gesto que tem significação, está claro, mas uma significação indefinida: confere-se com este mesmo gesto, não só Ordens sacras diversas, como ainda o Sacramento da confirmação. Temos assim um elemento sensível que exige determinação ulterior: será a "matéria", dotada de significação determinável. Acontece, porém, que no ritual anglicano, quando foi elaborado, a "forma" da ordenação sacerdotal era muitíssimo vaga; dizia apenas: "recebe o Espírito Santo". Palavras que nada determinam, pois não significavam mais o sacerdócio do que a confirmação. Já por este motivo, as ordenações anglicanas eram nulas: havia "matéria" mas faltava a "forma".
No caso específico do matrimônio, é interessante notar que ele é o único sacramento (com exceção do batismo, em casos especiais) onde o oficiante não precisa ter sido ordenado; de fato, os ministros do casamento são os próprios noivos. O matrimônio é assim o único sacramento oficiado por dois ministros simultaneamente, e o único onde um ministro recebe o sacramento ao mesmo tempo que o confere. O sacerdote, no matrimônio, é unicamente a testemunha autorizada do contrato matrimonial.
 
Seria bom que os noivos fossem sempre instruídos sobre a honra que lhes cabe de serem canais da graça. Certamente, cientes do fato de que não só estão recebendo uma graça, como conferindo um sacramento, se envolveriam ainda mais nos aspectos espirituais do rito que vão administrar.
 
Para a Igreja Católica, o matrimônio atende a duas funções. Uma, primária, de procriação; e uma secundária, de ajuda mútua. E é considerado indissolúvel, salvo algumas exceções.
 
Uma delas é quando dois pagãos se casam, e após o casamento, um deles tendo se batizado, é abandonado pelo conjuge. Nessas condições, S. Paulo diz que é lícita a realização de um novo casamento, pois o primeiro não teve caráter sacramental. Outro caso é quando o casamento entre batizados não é consumado; nessa situação, pode ser dissolvido pelo Soberano Pontífice, pois também não concluíu-se o simbolismo sacramental.
 
O catolicismo vê o casamento como a união do homem e da mulher de forma análoga à união de Cristo e a Igreja. O sacramento eleva o contrato nupcial à uma fonte de graça para os dois seres que se unem em comunhão. Dessa forma, o vínculo criado não é apenas carnal, social ou financeiro, mas espiritual. Um conjuge se torna fonte de graça para o outro, tornando o matrimônio um caminho para a santidade.
 
Considero interessante, aqui, fazer uma pequena pausa nessa linha de raciocínio, e analisar como o casamento é visto, em oposição ao celibato, por teósofos e cristãos. Do ponto de vista teosófico, vou reproduzir aqui as palavras de Blavatsky, em seu livro "A Chave para a Teosofia", ao responder se um homem deveria permanecer celibatário:
Isso depende do tipo de homem a que você se refere. Se é a um homem que pretende viver no mundo, alguém que, mesmo sendo um bom e dedicado teósofo e um ardoroso trabalhador da nossa causa, ainda tem amarras e desejos que o ligam ao mundo; que, em resumo, não sente que já finalizou para sempre com o que os homens chamam vida e que deseja apenas uma coisa e somente essa coisa - conhecer a verdade e ser capaz de ajudar os outros - então a esse homem eu diria que não há motivo para que não se case.
E mais a frente, falando sobre quem deseja dedicar-se de forma mais intensa ao ocultismo:
Da mesma forma é impossível para ele dividir suas atenções entre a busca do Ocultismo e uma esposa. Se ele tentar, seguramente falhará em fazer as duas coisas adequadamente; além do mais, permita-me lembrá-lo, o Ocultismo prático é um estudo demasiado sério e perigoso para ser realizado sem a mais extrema dedicação.
Penido destaca pontos da doutrina católica semelhantes:
A superioridade da virgindade por motivos religiosos, como estado de vida, foi expressamente afirmada por Cristo (Mt 19, 11-12) e por S. Paulo (1 Cor 7, 25-40).
(...)
Mas não será possível santificar-se, e muito, no estado de casado? Por certo. Se não fosse possível servir a Deus no casamento, a Igreja o proibiria a seus filhos, como lhes proíbe os estados de vida pecaminosos.
Sendo assim, existe consenso em dizer que podemos buscar evolução espiritual dentro da vida matrimonial, mas que a partir de um determinado grau de dedicação, o interesse matrimonial se torna conflitante com o interesse espiritual. Os dois caminhos, independente disso, são sagrados - sacramentados pela ordenação ou pelo casamento.
 
Voltando-nos rapidamente para o sacramento em si, e dando agora um enfoque teosófico, vemos no livro "A Ciência dos Sacramentos" de Leadbeater que
A intenção geral do serviço de casamento é abrir as naturezas dos noivos uma para a outra, especialmente nos níveis astrais e mentais; e então, tendo feito isso, desenhar um anel em torno deles, separando-os até um certo ponto do resto do mundo. Do ponto de vista da vida interna o matrimônio é um tremendo experimento, em que as partes concordam em fazer certos sacrifícios de liberdade e preferências individuais, na esperança e na intenção de que através de suas mútuas reações cada um intensificará a vida interna do outro, de forma que em primeiro lugar sua força espiritual conjunta seja muito superior ao que os seus esforços individuais somados seriam, e em segundo lugar para que tenham o privilégio de produzir veículos adequados para almas que desejam e merecem uma boa oportunidade de rápida evolução.
Notem que nesse comentário Leadbeater coloca o interesse secundário apontado pela Igreja como o interesse primário. Vale lembrar que Leadbeater era um bispo da Igreja Católica Liberal, e portanto muitas de suas idéias não são idênticas às católicas.
 
Nesse mesmo livro, Leadbeater descreve o que a visão clarividente revela no ponto máximo da cerimônia:
A medida em que o noivo pronuncia seus votos, sua aura inteira refulge e se convolui até que engloba por completo a noiva; e quando é a vez dela pronunciar os votos, ela o envolve da mesma forma, e as duas auras grandemente aumentadas permanecem se interpenetrando e interagindo fortemente. Nesta dupla esfera mágica surge o anel consagrado, instantaneamente iluminando mais os dois, e elevando suas vibrações de forma que se tornam muito mais sensíveis que o normal. Enquanto essa condição de consciência extendida e alta receptividade ainda existe, o padre pronuncia a fórmula do casamento; e enquanto ele diz as palavras um fluxo de luz surge através dele para as auras combinadas, e nesse momento as une em uma só.
Essa "fusão" desaparece algum tempo depois do rito, porém as duas auras permanecem algo modificadas, vibrando mais facilmente em resposta à outra. Isso traz uma grande responsabilidade, pois as vibrações de um conjuge tem assim maior impacto em seu par. Esse vínculo, diz Leadbeater, não se rompe com a morte física. Devido a isso, ele diz que a igreja vê com desconfiança segundos casamentos.
 
A Igreja também não vê com bons olhos a união estável, caracterizada pela convivência duradoura entre o homem e a mulher, estabelecida com o objetivo de constituição familiar. Mas na prática, o que ocorre com casais que vivem em regime de união estável sem terem conferido um ao outro o sacramento matrimonial?
 
Embora não tenham passado pelo sacramento, e pela sutil modificação provocada por este em seus corpos sutis, a união estável pressupõe um vínculo emocional já estabelecido. De acordo com o conhecimento teosófico, a intensa, contínua e duradoura troca energética que ocorre entre um casal intensifica os vínculos entre seus corpos sutis, de forma que, passando ou não pelo sacramento, é criada uma ligação muito forte entre eles. Nesse sentido, o sacramento não seria, portanto, insubstituível. De um ponto de vista prático, o casamento implica na formalização de um compromisso entre o casal, e termina sendo uma segurança social. De um ponto de vista espiritual, o sacramento representa um marco, e um auxílio na união do casal. Mas sua ausência não é um perigo, ou um risco de fracasso para a união.
 
Mesmo o relacionamento sexual cria um forte vínculo entre o casal, e talvez a natureza desse vínculo seja o ponto de atenção que devemos ter em mente quando vivemos uma união que não passou pelo auxílio do sacramento.
 
Assumo, sem conhecimento real (já que as fontes católicas que consultei não diferenciam corpo astral do mental, por exemplo, aludindo apenas à alma ou espírito), que a união dos corpos sutis proporcionada pelo matrimônio se estabeleça em níveis acima do astral. Não é, portanto, uma ligação emocional, como a que se forma naturalmente em todo relacionamento, e de forma particularmente intensa devido a relações sexuais. Vínculos astrais formados por uma única relação sexual podem durar meses, devido à sua intensidade. Na ausência do auxílio oferecido pelo sacramento (embora em verdade devessemos considerar isso independente dele) o casal deve estar atento para este aspecto da união. Deve ser dada importância ao estudo espiritual, e principalmente a alguma forma de prática espiritual comum ao casal.
 
Vejo em minha vida particular o quanto compartilhar interesses espirituais - e práticas derivadas deles - é importante para a saúde do relacionamento. A espiritualidade empresta um caráter profundo, sereno, perene, a um relacionamento que de outra forma seria baseado em emoções intensas, porém que por sua natureza respondem a ciclos que alternam grandes intensidades e momentos de uma calmaria que, muitas vezes, pode terminar enfraquecendo a união do casal. A união espiritual constrói um cenário onde uma nova vida se desenvolve, e dentro dessa vida as paixões, os filhos, o trabalho, assumem nunces que passariam despercebidas em um relacionamento puramente "astral".
 
Comparado com o batismo, à comunhão ou outros sacramentos, não se nota um afluxo de energias tão grande no matrimônio. Contudo isso não diminui sua importância, carregando um simbolismo muito forte e trazendo implicações bastante práticas para a vida espiritual do casal. Concluo esse texto com as palavras de Besant, no livro citado acima (no capítulo "Os Sacramentos (continuação)"), onde se nota o alcance desse simbolismo:
Tais são o alcance e a profundeza espiritual, no casamento, entre o homem e a mulher. O homem representa, aqui, o Espírito ou a Trindade da Vida, e a mulher a Matéria ou a Trindade da substância, base da forma. Uma dá vida; o outro a recebe e alimenta. Seres complementares, metades inseparáveis de um só todo, não poderiam existir um sem o outro. Se o Espírito implica a Matéria e a Matéria o Espírito, o marido também implica a mulher e a mulher o marido.
(...)
O Casamento é a imagem de Deus e do Universo.

 

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