Clarividência Simples: Completa

Enviado por Estante Virtual em dom, 01/22/2012 - 02:56

Definimos esta como sendo um mero abrir da visão etérica ou astral, que torna o seu possuidor capaz de ver o que o cerca em níveis correspondentes, mas não é em geral acompanhado pelo poder de ver qualquer cousa a grande distância ou ler no passado ou no futuro. Não é possível, decerto, excluir de todo estas últimas faculdades, porque a visão astral tem necessariamente uma extensão consideravelmente maior do que a física, e por vezes acontece que quadros fragmentados tanto do passado como do futuro são casualmente visionados mesmo por clarividentes que não têm nenhuma noção de como especialmente procurá-los; há contudo uma distinção muito real entre esses vislumbres acidentais e o poder, nitidamente tal, de projetar a vista quer no espaço, quer no tempo. Entre gente sensível encontramos todos os graus desta espécie de clarividência, desde a do indivíduo que obtém uma impressão vaga que mal merece o nome de visão, até à plena posse da visão etérica ou da visão astral. Talvez que o mais simples seja que comecemos por descrever o que seria visível no caso deste mais pleno desenvolvimento da faculdade, visto que os casos da sua posse parcial serão, então, devidamente compreendidos em relação a esse. Tratemos, primeiro, da visão etérica. Esta consiste simplesmente, como já se disse, na suscetibilidade a uma série muito maior de vibrações físicas do que é normal, mas, ainda assim, a sua posse traz para a vista uma porção de cousas a que a maioria da humanidade ainda é cega. Vejamos que efeitos produz a aquisição desta faculdade no aspecto de objetos familiares, animados e inanimados, e notemos depois a que fatores inteiramente novos ela nos torna conscientes. Mas deve ter-se presente que o que vou descrever é o resultado da posse plena e perfeitamente dominada da faculdade, e que a maioria dos casos que encontramos pelo mundo fora serão, com respeito a esse, deficientes num ou noutro ponto. A alteração mais flagrante que é produzida, no aspecto dos objetos inanimados, pela aquisição desta faculdade, é que a maioria deles se torna quase transparente, devido à diferença do comprimento de onda em algumas das vibrações a que o indivíduo acaba de se tornar sensível. Ele verifica que é capaz de realizar com a maior das facilidades o feito tradicional de "ver através dum muro de pedra", porque, para a sua nova visão, o muro de pedra parece não ter maior consistência do que uma névoa ligeira. Por isso ele vê o que se passa num quarto ao lado, quase como se não existisse uma parede intermédia; pode descrever sem errar o conteúdo duma caixa fechada, ou ler uma carta que está lacrada dentro do seu envelope; com alguma prática pode encontrar determinado trecho num livro fechado. Este último feito, ainda que perfeitamente fácil para a visão astral, é bastante difícil para quem empregue a visão etérica, porque cada página tem de ser vista através de todas as outras que calhe estarem a ela sobrepostas. Muitas vezes se pergunta se nestes casos um indivíduo vê sempre com a sua visão anormal, ou se apenas o faz quando assim deseja. A resposta é que, se a faculdade está perfeitamente desenvolvida, estará inteiramente sob o domínio do indivíduo, e ele poderá, conforme queira, empregar essa visão, ou apenas a sua visão normal. Ele passa de uma para a outra com a prontidão e a naturalidade com que normalmente mudamos o foco dos nossos olhos ao levantá-los do livro, que estamos lendo, para seguir os movimentos dum objeto a um quilômetro de distância. Trata-se, por assim dizer, de focar a consciência sobre um ou outro aspecto do que se vê; e, ainda que o indivíduo tenha claramente em vista aquele aspecto sobre o qual a sua atenção se fixa no momento, sempre terá uma vaga consciência do outro aspecto também, exatamente como quando focamos a vista sobre qualquer objeto que tenhamos na mão, contudo vagamente vemos a parede fronteira do quarto, como fundo. 

Uma outra curiosa alteração, que vem da posse desta visão, é que a terra sólida, sobre a qual o indivíduo caminha, se torna até certo ponto transparente a seus olhos, de modo que ele pode ver até bastante fundo nela, exatamente como normalmente vemos através de água relativamente límpida. Isto o torna capaz de ver qualquer animal construindo um túnel subterrâneo, ou distinguir um filão de carvão ou de minério, se não estiver muito fundo, etc. 

Os limites da visão eténua quando olha através de matéria sólida, parecem ser análogos àqueles que nos são impostos quando vemos através de água ou de nevoeiro. Não podemos ver para além de uma certa distância, porque o meio, através do qual olhamos, não é perfeitamente transparente. 

O aspecto dos objetos animados também resulta perfeitamente alterado para o indivíduo que aumentou até este ponto os seus poderes visuais. Os corpos dos homens e dos animais são para ele em grande parte transparentes, de modo que pode ver em operação os vários órgãos internos e, até certo ponto, diagnosticar as doenças deles. 

Esta visão mais extensa também lhe permite ver, com maior ou menor clareza, várias espécies de criaturas, elementais e outras, cujos corpos não são capazes de refletir quaisquer dos raios dentro dos limites do espectro como o vemos normalmente. Entre as entidades assim vistas estarão algumas das ordens inferiores dos espíritos-da-natureza — aqueles cujos corpos são compostos da mais densa matéria etérica. A esta classe pertencem todas as fadas, gnomos, etc., a respeito dos quais tantas histórias ainda restam nas montanhas da Escócia e da Irlanda e em países longínquos em todo o mundo. 

O vasto reino dos espíritos-da-natureza é sobretudo um reino astral, mas há uma grande secção dele que pertence à parte etérica do plano físico, e esta secção, é claro, é muito mais natural que entre na esfera do conhecimento de gente normal, do que as outras. Na verdade, ao lermos os vulgares contos de fadas, freqüentemente encontramos nítidas indicações de se estar tratando desta classe. Qualquer estudioso de contos de fadas deve lembrar-se do grande número de vezes que neles se fala dum ungüento ou droga misteriosa, a qual, quando aplicada aos olhos dum indivíduo, o torna apto a ver os membros da república das fadas, onde quer que os encontre. 

A história desta aplicação e dos seus resultados é tão repetida e surgenos de tanta parte do mundo que com certeza deve basear-se numa verdade qualquer, como numa qualquer verdade sempre se baseia qualquer tradição popular realmente universal. Ora não há mero untar apenas dos olhos de um indivíduo que seja capaz de lhe abrir a visão astral, mas há certos ungüentos que, esfregados sobre todo o corpo, muito auxiliam o corpo astral a abandonar o físico com plena consciência — fato este cujo conhecimento parece ter vindo até aos tempos medievais, como se verá dos testemunhos dados em alguns dos julgamentos por bruxaria. Mas a aplicação aos olhos físicos bem poderá de tal modo excitar a sua sensibilidade que os torne acessíveis a algumas das vibrações etéricas. 

A história muitas vezes, continuando, acrescenta como quando o ser humano, que empregou esse ungüento místico, revela de qualquer modo a uma fada a sua visão alargada, ela lhe bate ou lhe espeta os olhos, privandoo assim, não só da vista etérica, mas mesmo daquela do mais denso plano físico. (V. A Ciência dos Contos de Fadas, por E. S. Hartland, na "Contemporary Science Series" — ou, de resto, qualquer coleção razoavelmente completa de contos de fadas.) Se a vista adquirida tivesse sido astral, tal procedimento da parte da fada teria resultado perfeitamente inútil, pois que nenhum estrago produzido no aparelho físico pode afetar uma faculdade astral; mas se a visão produzida pelo ungüento tivesse sido etérica, a destruição dos olhos físicos imediatamente, na maioria dos casos, a extinguiria, visto que é através deles que essa visão opera. 

Qualquer indivíduo que possuísse esta vista, de que estamos falando, poderia também ver o duplo etérico do homem; mas, visto que este e quase idêntico em tamanho ao corpo físico, é pouco provável que lhe chamasse a atenção, a não ser que estivesse parcialmente projetado em transe ou pela influência de anestésicos. Depois da morte, quando se retira inteiramente do corpo denso, ser-lhe-ia claramente visível, e ele freqüentemente o veria pairando por cima de sepulturas recentes ao passar por um cemitério. Se fosse assistir a uma sessão espírita veria a matéria etérica saindo do lado do médium e observaria as diversas maneiras de que as entidades comunicantes se servem dela. 

Um outro fato que em breve não deixaria de o impressionar seria a extensão da sua percepção da cor. Ele encontrar-se-ia capaz de ver várias cores inteiramente novas, em nada parecidas com aquelas que formam parte do espectro como o conhecemos agora, e portanto inteiramente indescritíveis em quaisquer palavras de que disponhamos. E não só veria novos objetos inteiramente compostos dessas cores novas, mas também descobriria que se tinham modificado as cores de muitos objetos que ele conhecia, consoante eles tinham ou não algum elemento destes novos matizes na sua constituição. De modo que duas superfícies coloridas, que aos olhos vulgares pareceriam assemelhar-se perfeitamente, muitas vezes se revelariam de todo diferentes à sua vista mais apurada. 

Referimo-nos já a algumas das principais alterações que aconteceriam no mundo de um indivíduo quando ele adquirisse a visão etérica; e devemo-nos sempre lembrar que, ao mesmo tempo, uma alteração correspondente aconteceria também aos seus outros sentidos, de modo que ele se tornaria capaz de ouvir, e talvez mesmo de sentir mais do que a maioria dos que o cercam. Suponhamos, agora, que, além disto, ele adquiria também a visão do plano astral; que alterações adicionais de aí resultariam? 

Essas alterações seriam muitas e importantes; de fato, abrir-se-ia diante dos seus olhos um mundo inteiramente novo. Consideremos resumidamente as suas maravilhas pela mesma ordem do que dantes, e vejamos primeiro qual a diferença que haveria no aspecto dos objetos inanimados. Sobre este ponto começarei por citar uma estranha resposta, recentemente impressa em The Vahan: 

"Há uma diferença nítida entre a visão etérica e a visão astral, e é esta última que parece corresponder à quarta dimensão. 

"O modo mais fácil de compreender a diferença é por meio de um exemplo. Se olhásseis para um homem com as duas visões, uma após outra, nos dois casos veríeis os botões nas costas do seu sobretudo; mas, se usásseis a visão etérica, vê-los-ei através dele. e veríeis portanto mais próximo de vos o lado de trás do botão, ao passo que, se vísseis astralmente, veríeis não só assim, mas ao mesmo tempo como se estivésseis colocado por detrás do indivíduo e olhando-lhe para as costas. 

"Ou se estivésseis olhando etericamente para um cubo com caracteres escritos em todos os lados, o cubo seria para a vossa vista como se fosse de vidro, de modo que podíeis ver através dele, vendo o que está escrito do lado oposto de trás para diante, ao passo que o que está escrito dos lados só poderia estar nítido para vós se mudásseis de lugar, visto que sem isso apenas o veríeis de lado. Mas se olhásseis para ele astralmente, veríeis todos os lados ao mesmo tempo e todos diante de vós a direito como se todo o corpo tivesse sido tornado plano diante dos vossos olhos; e veríeis também cada partícula do interior do cubo, não através das outras, mas planamente. Estaríeis olhando para o cubo de uma outra direção, perpendicularmente a todas as direções que conhecemos. 

"Se olhardes etericamente para a parte de trás de um relógio, vereis as rodas todas do maquinismo através dela, e o mostrador através das rodas, mas ao contrário; se olhardes para ela astralmente, vereis o mostrador como deve ser e todas as rodas separadas umas das outras, mas nenhum destes objetos sobreposto a outro." 

Aqui temos nós nitidamente a nota, o principal fator da mudança; o indivíduo está vendo tudo de um ponto de vista inteiramente diferente, inteiramente fora de tudo quanto antes pôde imaginar. Já não tem a menor dificuldade em ler qualquer página dum livro fechado, porque já não está olhando para ela através de todas as outras páginas que estão antes ou depois, mas sim olhando diretamente para ela como se fosse a única página a ver. A profundidade a que está um filão de minério ou de carvão já não é um obstáculo à sua visão dele, porque ele já não está olhando para o filão através da profundidade de terra que medeia. A grossura dum muro, ou o número de muros entre o observador e o objeto, fariam uma grande diferença para a nitidez da visão etérica; não fariam diferença nenhuma para a visão astral, porque no plano astral nada disso estaria entre o observador e o objeto. Está claro que isto parece paradoxal e inexplicável, e é na verdade inteiramente inexplicável a um espírito que não esteja educado a compreender idéias destas; mas nem por isso é menos verdadeiro. 

Isto leva-nos naturalmente à questão debatidíssima da quarta dimensão — assunto do maior interesse, mas que não podemos discutir no curto espaço de que dispomos. Quem o quiser estudar, com a atenção que o problema merece, deve ler, de princípio, Os Romances Científicos do sr. C. II. llinton ou Outro Mundo do Dr. A. T. Schofield, passando depois à obra mais extensa do primeiro destes autores, Uma Nova Era do Pensamento. O sr. llinton não só afirma ser pessoalmente capaz de abranger mentalmente algumas das figuras quadridimensionais mais simples, mas também diz que o pode fazer quem se der ao trabalho de seguir atenta e perseverantemente as suas instruções. Não me parece que isto esteja ao alcance de toda a gente, como crê o autor, pois se me afigura que para isso é precisa uma considerável habilidade matemática; mas posso testemunhar, pelo menos, que o tesserato, ou cubo quadridimensional, é uma realidade, porque é uma figura muito conhecida no plano astral. O sr. Hinton acaba de aperfeiçoar um novo método de representar as várias dimensões por meio de cores em vez de por meio de símbolos escritos arbitrários. Afirma que assim o estudo ficará muito simplificado, visto que o leitor será capaz de reconhecer imediatamente, à vista, qualquer parte ou feição do tesserato. Diz-se que uma descrição completa deste método, com ilustrações, está a entrar no prelo, devendo aparecer dentro de um ano, de modo que os que pretendem estudar este assunto fascinador farão bem em aguardar a sua publicação. 

Sei que Madame Blavatsky, ao aludir à teoria da quarta dimensão, deu o seu parecer no sentido de que isso é apenas uma maneira grosseira de afirmar a idéia da inteira permeabilidade da matéria, e que o sr. W. T. Stead seguiu a mesma orientação, apresentando esse conceito aos seus leitores sob o nome de throughth ('). A investigação cuidadosa, detalhada e repetida parece, porém, mostrar concludentemente que essa explicação não abrange todos os fatos. É uma descrição perfeita da visão etérica, mas a idéia mais avançada, e inteiramente diferente, da quarta dimensão, tal qual a expõe o sr. Hinton, é a única que dá qualquer explicação plausível sobre os fatos de visão astral constantemente observados neste mundo. Tomarei portanto, e com o devido respeito, a liberdade de sugerir que Madame Blavatsky, quando escreveu como citei, tinha em mente a visão etérica, e não a astral, e que a extrema aplicabilidade da frase a esta outra, e mais elevada, faculdade, na qual ela ao momento não pensava, não lhe ocorreu. 

A posse deste poder extraordinário e que mal se pode definir deve, pois, estar sempre presente no espírito do leitor através de tudo o que segue. Ela torna patente aos olhos do vidente cada ponto no interior de um sólido, exatamente como cada ponto no interior de um círculo está patente à vista do observador que olha para esse círculo. 

Mas mesmo isto não esgota tudo quanto essa visão dá ao seu possuidor. Ele vê não só o interior, como o exterior, de cada objeto, mas também o seu correspondente astral. Cada átomo e molécula da matéria física tem (O Esta palavra nova e intraduzível é um substantivo formado da preposição through (= através). 

O seu átomo ou molécula astral correspondente, e o volume com estas construído é claramente visível ao clarividente. Em geral a parte astral de qualquer objeto é projetada um pouco para além dos limites do seu físico, e assim os metais, as pedras e outros objetos aparecem cercados por uma aura astral. 

Ver-se-á imediatamente que, mesmo no estudo da matéria inorgânica, um indivíduo ganha imenso com a aquisição desta visão. Não só vê a parte astral do objeto para que olha, que antes lhe era inteiramente oculta; não só vê muito mais da sua constituição física do que antes vira; mas mesmo o que antes lhe era visível é agora visto com uma clareza e uma verdade muito maiores. Um momento de reflexão mostrará que esta nova visão se aproxima muito mais da verdadeira percepção do que a vista física. Por exemplo, se se olhar astralmente para um cubo de vidro, todos os seus lados parecerão iguais, como com efeito são, ao passo que no plano físico se vê o lado oposto em perspectiva — isto é, parecendo mais pequeno do que o lado que está perto, o que não passa, é claro, duma mera ilusão devida às nossas limitações físicas. 

Quando passamos a considerar as facilidades adicionais que ela oferece na observação dos objetos animados, mais claramente vemos as vantagens da visão astral. Ela mostra ao clarividente a aura das plantas e dos animais; e, no caso destes, portanto, os seus desejos e emoções, como os pensamentos que tenham, estão patentes aos olhos dele. 

Mas é com referência aos seres humanos que ele mais apreciará as vantagens desta faculdade, porque muitas vezes os poderá auxiliar muito melhor quando se guiar pela informação que ela lhe fornece. 

Poderá ver a aura até ao corpo astral, e, ainda que isso deixe ainda invisível toda a parte superior do homem, ser-lhe-á possível, mediante uma observação cuidadosa, aprender, pela parte que lhe é visível, bastantes cousas a respeito dessa parte superior. A sua capacidade de examinar o duplo etérico dar-lhe-á grandes facilidades em localizar e classificar quaisquer doenças ou defeitos do sistema nervoso, e do aspecto do corpo astral verá imediatamente as emoções, as paixões, os desejos e as tendências do indivíduo que tem em sua frente, e, também, grande parte dos seus pensamentos. 

Ao olhar para um indivíduo, vê-lo-á cercado pela névoa luminosa da aura astral, faiscando em variadíssimas cores brilhantes, e constantemente mudando de matiz e de brilho com cada variação dos pensamentos e dos sentimentos do indivíduo. Verá essa aura cheia do belo cor de rosa da afeição pura, do azul brilhante dos sentimentos de devoção, do castanho duro e baço do egoísmo, do escarlate vivo da cólera, do horrível vermelho ardente da sensualidade, do cinzento lívido do medo, das nuvens negras do ódio e da maldade, ou de qualquer das tantas outras indicações tão facilmente lidas por um olhar experimentado; e assim será impossível a qualquer pessoa esconder-lhe o estado verdadeiro dos seus sentimentos sobre qualquer assunto. 

Estas variadas indicações da aura são, de per si, um estudo profundamente interessante, mas não me sobra o espaço para aqui me referir a elas detalhadamente. Um relato muito mais circunstanciado a seu respeito, acompanhado de ilustrações coloridas, encontra-se na minha obra sobre O Homem Visível e Invisível. 

A aura astral, porém, não só lhe mostra os resultados temporários da emoção que a está atravessando no momento, mas também lhe revela, pelo arranjo e proporção das suas cores quando num estado de relativo repouso, uma indicação quanto à disposição geral e ao caráter do seu dono. Porque o corpo astral é a expressão de quanto do indivíduo pode ser expresso naquele plano, de modo que, do que nele se vê, se pode, com razoável segurança, concluir muito mais, de cousas que pertencem a planos mais elevados. 

Neste juízo sobre o caráter o clarividente será consideravelmente auxiliado por aquilo que do pensamento do indivíduo se exprime no plano astral, e que, por conseguinte, fica dentro do alcance da sua visão. A verdadeira sede do pensamento é no plano mental, e todo o pensamento primeiro se manifesta ali como uma vibração do corpo mental. Mas se o pensamento tiver qualquer elemento egoísta, ou se de algum modo estiver ligado a uma emoção ou a um desejo, desce imediatamente ao plano astral e toma uma forma visível de matéria astral. 

No caso da maioria dos homens, quase todos os seus pensamentos entram em uma ou outra destas categorias, de modo que se pode dizer que toda a sua personalidade estará patente à visão astral do observador, visto que os seus corpos astrais e as formas de pensamento que delas constantemente emanam seriam para ele como um livro aberto onde os característicos do observado estariam escritos claramente, de modo a poder ser lidos por quem quer que seja com o preciso alcance de visão. Quem quiser ter uma idéia de como as formas de pensamento se apresentam à visão clarividente pode até certo ponto satisfazer a sua curiosidade examinando as ilustrações que acompanham o valioso artigo sobre o assunto, que Mrs. Besant escreveu em Lúcifer, de setembro de 1896. 

Vimos já qualquer cousa com respeito à alteração no aspecto, tanto dos objetos inanimados como dos animados, quando vistos por quem possui a plena visão clarividente no que se refere ao plano astral; vejamos agora que objetos inteiramente novos ele será capaz de ver. Terá consciência de uma plenitude muito maior na natureza em muitas direções, mas a sua atenção será especialmente atraída pêlos habitantes vivos deste novo mundo. Não podemos, no pouco espaço de que dispomos, sequer tentar um relato detalhado do que eles são; o assunto pode ser estudado, porém, no quinto dos nossos Manuais Teosóficos. Não podemos aqui senão enumerar rapidamente apenas algumas classes de entre as vastas hostes de habitantes astrais. 

Impressioná-lo-ão as formas protéicas da maré incessante de essência elemental, redemoinhando sempre em seu torno, por vezes ameaçando, mas sempre retirando perante um esforço forte da vontade; maravilhá-lo-á o exército enorme de entidades temporariamente arrancadas desse oceano para uma vida separada pêlos pensamentos e os desejos dos homens, bons ou maus que sejam. Assistirá ao trabalho ou ao recreio das múltiplas tribos de espíritos da natureza; poderá por vezes estudar, com deleite crescente, a evolução magnífica de algumas das ordens inferiores do glorioso reino dos devas, que corresponde aproximadamente às hostes angélicas da terminologia cristã. 

Mas talvez de maior interesse para ele serão os habitantes humanos do reino astral, e ele encontrá-los-á divididos em duas grandes classes — aqueles a quem chamamos os vivos, e os outros, alguns dos quais infinitamente mais vivos, a quem absurdamente chamamos os mortos. Entre os primeiros encontrará aqui e ali um ou outro inteiramente desperto e plenamente consciente, mandado, talvez para lhe comunicar qualquer cousa ou examinando-o atentamente, para ver que progresso está fazendo; ao passo que a maioria dos seus semelhantes, quando fora dos seus corpos físicos durante o sono, passará por ele sem nexo ou direção, tão presos das suas cogitações que pouca ou nenhuma consciência têm do que os cerca. Entre a grande multidão dos recém-mortos encontrará todos os graus de consciência e de inteligência, e todas as nuances de caráter — porque a morte, que parece à nossa curta visão ser urna mudança tão absoluta, nada altera do homem propriamente tal. No dia depois da morte ele é exatamente o mesmo homem que era no dia antes, com a mesma disposição, as mesmas qualidades, as mesmas virtudes e os mesmos vícios, salvo apenas que abandonou o seu corpo físico; mas a perda desse faz-lhe tanta diferença como o tirar um sobretudo. E, assim, entre os mortos o nosso observador encontrará gente inteligente e gente estúpida, gente bondosa e gente maligna, gente séria e gente frívola, gente de feitio espiritual e gente de índole sensual, exatamente como entre os vivos. 

Visto que pode, não só ver os mortos, mas também falar com eles, pode muitas vezes ser-lhes útil e dar-lhes informação e conselhos que lhes sejam de grande utilidade. Muitos deles estão num estado de grande surpresa e perplexidade, e, às vezes, mesmo de grande angústia, por encontrarem os do mundo seguinte tão diferentes de todas as lendas infantis que enquanto a religião popular do Ocidente tem a oferecer com respeito a este assunto transcendentemente importante; e por isso um indivíduo que compreenda este novo mundo e possa dar explicações é na verdade um amigo na ocasião de o ser. 

De muitas outras maneiras pode um indivíduo que possui esta faculdade ser útil tanto aos vivos como aos mortos; mas esta parte do assunto já por mim foi tratada no meu livro Auxiliares Invisíveis. Além de entidades astrais ele encontrará cadáveres astrais — sombras e "cascas" em todos os estados de decomposição; mas aqui basta que estes se mencionem, visto que nos nossos terceiro e quinto manuais o leitor, que deseje saber mais a esse respeito, encontrará o que procura. 

Um outro resultado maravilhoso que um indivíduo tira do pleno gozo da clarividência astral, é que deixa de ter quebras ou intervalos na sua vida consciente. Quando de noite adormece, deixa o seu corpo físico ao descanso que ele precisa, e segue tratando da sua vida no seu, bem mais confortável, instrumento astral. De manhã regressa e retoma posse do seu corpo físico mas sem interrupção de consciência ou perda de memória entre os dois estados, podendo assim, por assim dizer, viver uma vida dupla que contudo é só uma, e empregar utilmente toda ela, em vez de perder a terça parte da sua existência numa inconsciência total. 

Um outro estranho poder que talvez se encontre possuindo (ainda que a sua completa posse e pleno domínio antes pertença à, mais elevada, faculdade devacânica) é o de aumentar, quando assim quiser, o tamanho da mais pequena partícula física ou astral, até ela ter as dimensões que ele deseja, como se estivesse empregando um microscópio — ainda que nenhum microscópio que existe, ou seja provável que exista, possua nem a milésima parte deste poder físico de aumentar. Por meio desta faculdade a molécula e átomo hipotéticos, que a ciência postula, tornam-se realidades visíveis e vivas para o estudioso das cousas ocultas, e, ao examiná-las assim de mais perto, ele verifica que a sua estrutura é muito mais complexa do que pensa o homem de ciência. Também essa faculdade o torna capaz de seguir com a mais interessada atenção todas as espécies de ação elétrica, magnética, e etérica de outras espécies; e quando alguns dos especialistas nestes ramos da ciência conseguirem desenvolver o poder de ver estas cousas de que tão facilmente escrevem, há a esperar algumas revelações bem maravilhosas e belas. 

É este um dos sidhis ou poderes descritos nos livros orientais como vindo a ser pertença do indivíduo que se dedique ao aperfeiçoamento espiritual, ainda que o nome que ali lhe é dado possa não ser imediatamente compreendido. Ali chama-se-lhe "o poder de nos tornarmos grandes ou pequenos conforme quisermos", e a razão de o fato ser descrito em expressões que parecem exatamente invertê-lo é que, na verdade, o método pelo qual este feito se consegue é precisamente esse que esses livros antiquíssimos indicam. E pelo emprego de um maquinismo visual temporário de uma pequenez inconcebível que o mundo do infinitamente pequeno tão nitidamente se observa; e, do mesmo modo (ou, antes, seguindo o método oposto), é por um aumento enorme e temporário do tamanho do maquinismo visual que se torna possível alargar o alcance da nossa vista — no sentido físico tanto como, esperemo-lo, no sentido moral — para além de tudo quanto a ciência tem concebido como possível ao homem. De modo que a alteração no tamanho é realmente no instrumento da consciência do observador, e não em qualquer cousa fora dele; e o velho livro oriental expôs, afinal, a questão com mais justeza do que nós. 

A psicometria e a dupla-vista in excelsis estariam também no número das faculdades que o nosso observador possuiria; mas dessas mais propriamente trataremos em outro capítulo, visto que, em quase todas as suas manifestações, implicam a clarividência quer no espaço, quer no tempo. Indiquei, pois, ainda que nas linhas mais gerais, o que é que um observador instruído, possuindo a plena visão astral, veria no mundo imensamente mais vasto que essa visão lhe abriria; mas nada disse ainda da espantosa alteração na sua atitude mental que resulta da certeza experimental da existência da alma, da sua sobrevivência à morte, da ação da lei do carma, e de outros pontos de enorme importância. A diferença entre mesmo a mais profunda convicção intelectual e o conhecimento exato adquirido pela experiência pessoal direta deve ser sentida para poder ser compreendida.