A origem e a evolução do Reiki ainda hoje são tema de debate. Ao longo do tempo surgiram várias versões, muitas vezes apresentadas como “a verdadeira história do Reiki”, mas nem sempre com base em fontes verificáveis. Também é comum que cada nova escola faça pequenas adaptações na narrativa, o que contribui para a sensação de confusão.
Alguns mestres e pesquisadores se dedicaram a investigar documentos, registros de época e testemunhos no Japão. Graças a esse trabalho, hoje temos um quadro um pouco mais claro sobre Mikao Usui e o desenvolvimento do Reiki.
Este capítulo apresenta:
- A versão tradicional difundida no Ocidente por Hawayo Takata.
- As descobertas posteriores sobre Mikao Usui, Chujiro Hayashi e a continuidade do Reiki no Japão.
- O processo de ramificação do Reiki em diferentes sistemas e linhagens.
A ideia é oferecer ao estudante uma visão organizada, sem a necessidade de tomar partido em discussões históricas. O foco é compreender o suficiente para praticar com segurança e respeito às origens.
A origem do Reiki, conforme difundido no Ocidente
A versão mais conhecida no Ocidente foi difundida por Hawayo Takata, responsável por trazer o Reiki para o Havaí e, a partir daí, para outros países.
Segundo essa narrativa, o fundador do Reiki como sistema de harmonização natural é o Dr. Mikao Usui, sacerdote que, no final do século XIX, atuava como reitor da Universidade de Doshisha, em Kyoto, no Japão.
Certa vez, um de seus alunos perguntou se Usui aceitava o conteúdo da Bíblia. Diante da resposta afirmativa, o aluno prosseguiu: se Cristo havia dito que aqueles que cressem em seu nome poderiam realizar obras ainda maiores, por que não se viam mais pessoas curar enfermos e realizar outros “milagres”? Usui não soube responder de forma satisfatória. Essa pergunta, porém, marcou um ponto de virada em sua vida.
Decidido a encontrar uma resposta, ele deixou o cargo de reitor e viajou para os Estados Unidos, permanecendo lá por vários anos. Na Universidade de Chicago, aprofundou seus estudos sobre as Escrituras Sagradas, buscando compreender como Jesus e seus discípulos realizavam curas. Não encontrando o que procurava, retornou ao Japão e passou a estudar a filosofia budista em vários mosteiros.
Usui teve contato com os sutras e tradições japonesas ligadas às escrituras budistas, mas não encontrou explicações completas. Decidiu então aprender sânscrito, para ter acesso aos textos originais e a documentos que ainda não haviam sido traduzidos. Após anos de estudo, encontrou em anotações atribuídas a um discípulo de Buda referências a símbolos e instruções ligadas a um método de cura.
Segundo a versão tradicional, Usui havia redescoberto o conhecimento, mas ainda não tinha o poder de cura em si. Orientado por um abade amigo, retirou-se para uma montanha sagrada – o Monte Kurama – com a intenção de jejuar e meditar durante vinte e um dias, buscando uma experiência direta que confirmasse o que havia estudado.
Durante esse período, Usui contava os dias afastando pequenas pedras, uma a cada amanhecer. No vigésimo primeiro dia, teria percebido uma intensa luz aproximando-se, na qual os símbolos que havia estudado em sânscrito se tornaram nítidos. Perdeu os sentidos e, ao despertar, sentiu que havia entrado em contato com uma nova força.
A narrativa descreve algumas experiências imediatamente após a iluminação:
- Apesar do jejum prolongado, Usui sentia-se revitalizado.
- Ao descer a montanha, feriu o dedo do pé. Colocando as mãos sobre o ferimento, a dor e o sangramento teriam cessado rapidamente.
- Num pequeno albergue ao pé da montanha, pediu uma refeição completa e, surpreendentemente, não teve mal-estar ao comer depois de tantos dias em jejum.
- A menina que serviu a refeição sofria com dor intensa de dente. Usui colocou as mãos em sua cabeça e a dor teria cessado.
Ao retornar ao mosteiro, Usui teria ajudado também um abade que sofria com artrite. O alívio obtido reforçou sua compreensão de que havia acessado algo novo. O abade, satisfeito, teria exclamado: “Isto é Reiki! Energia Universal da Vida”.
A partir de então, de acordo com essa versão, Usui trabalhou por muitos anos com pessoas em situação de grande vulnerabilidade, especialmente em áreas pobres, oferecendo tratamento e apoio. Com o tempo, percebeu que a cura física não bastava; era necessário trabalhar também a mente e a atitude perante a vida. Dessa reflexão surgiram os chamados “Princípios do Reiki”, que veremos em outro capítulo.
Usui teria desencarnado em 9 de março de 1926. Após sua morte, alguns de seus discípulos continuaram a prática no Japão, e o Reiki só veio a se tornar conhecido no Ocidente através de Hawayo Takata, que recebeu tratamento e treinamento com Chujiro Hayashi, um dos alunos de Usui. Ao regressar ao Havaí, ela passou a divulgar a técnica e a formar novos praticantes.
Esta é, em resumo, a história contada pelos mestres formados por Takata. Nas próximas seções, veremos como pesquisas mais recentes complementaram e, em alguns pontos, corrigiram essa narrativa.
Mikao Usui segundo as pesquisas históricas
Com o passar do tempo, pesquisadores de Reiki começaram a buscar documentos que confirmassem dados sobre Mikao Usui. Uma fonte importante é o memorial erguido em sua honra em 1927, localizado no cemitério do Templo Saihoji, em Tóquio. O texto gravado nesse monumento traz informações valiosas sobre sua vida e trabalho.
O memorial descreve Usui como alguém que dedicou sua vida a aperfeiçoar corpo e mente e a ensinar um caminho de equilíbrio para muitas pessoas. Ele é apresentado como um mestre que ensinava o “Reiki do Universo” e era procurado por inúmeros alunos em busca tanto de orientação quanto de cura.
Segundo esses registros e outras fontes:
- Mikao Usui nasceu em 15 de agosto de 1865, em Taniai (região hoje incluída em Miyama-cho, Gifu-ken, Japão).
- Seu pai chamava-se Uzaemon Tsunetane, ligado à carreira militar, e sua mãe era da família Kawai.
- A tradição indica que ele teve contato com o budismo desde cedo. Há relatos de que também estudou práticas energéticas relacionadas ao Qi Gong (no Japão, Ki-ko), o que ajuda a compreender a base de algumas técnicas presentes no Reiki.
- Usui teve uma vida de estudos intensos e passou por diferentes atividades profissionais, incluindo cargos ligados ao governo e funções administrativas.
Em 1922, ele fundou a Usui Reiki Ryoho Gakkai (Sociedade de Estudo do Método de Cura Usui Reiki) e abriu uma clínica em Aoyama, Tóquio, onde atendia e ensinava em conjunto. Com o tempo, passou também a viajar para outras regiões do Japão, incluindo bases navais, difundindo o método e formando novos praticantes.
Os documentos apontam que:
- Usui ensinou Reiki a mais de dois mil estudantes.
- Pelo menos dezessete chegaram ao nível de professor (Shinpiden).
- O Reiki não desapareceu do Japão após sua morte, e a prática continuou em diferentes círculos, mesmo durante períodos difíceis como a Segunda Guerra Mundial.
Outro ponto importante dessas pesquisas é que, no Japão, não há registro de um título de “Grande Mestre” ou de uma única pessoa designada como sucessora absoluta de Usui. O que existia era uma sociedade, a Gakkai, que continuou o trabalho coletivo.
Unificando diferentes versões permanece um núcleo sólido: Mikao Usui organizou um método que integrava prática espiritual, princípios éticos e uma forma simples de aplicação energética, que foi transmitido a milhares de pessoas durante os cinco anos finais de sua vida.
Chujiro Hayashi
Chujiro Hayashi teve um papel central na transição do Reiki do Japão para o Ocidente.
Hayashi nasceu em 1879 e foi oficial da marinha imperial japonesa, com formação em medicina que incluia conhecimentos de medicina chinesa. Recebeu o nível de professor (Shinpiden) diretamente de Mikao Usui em 1925.
Após a morte de Usui, em 1926, alguns de seus alunos, incluindo oficiais da marinha, continuaram o trabalho em uma clínica em Nakano. Com o tempo, Hayashi seguiu seu próprio caminho e passou a dirigir a clínica, que mais tarde foi chamada de Hayashi Reiki Kenkyukai (Sociedade de Pesquisa Hayashi Reiki).
A escola de Hayashi oferecia treinamento estruturado, em geral através de seminários com alguns dias de duração. Os valores cobrados eram considerados altos para a época, mas havia a opção de o estudante trabalhar na clínica em regime de serviço por determinado período em troca da formação.
Hayashi também redigiu um manual, Ryoho Shishin (Guia do Método de Cura), com orientações de tratamento para diversas condições. Esse material guarda semelhanças importantes com o manual de Usui, reforçando a continuidade do método.
Ele faleceu em 10 de maio de 1940, deixando vários mestres formados, entre eles Hawayo Takata. Sua esposa prosseguiu por algum tempo com o trabalho da clínica.
Para a história do Reiki, Hayashi é a ponte que une diretamente o ensinamento de Usui ao caminho que levaria, mais tarde, à expansão do método pelo Ocidente.
Hawayo Takata e a chegada do Reiki ao Ocidente
Hawayo Takata nasceu em 24 de dezembro de 1900, na ilha de Kauai, no Havaí, filha de imigrantes japoneses que trabalhavam em plantações de cana-de-açúcar. Teve uma vida de muito esforço desde cedo. Casou-se com Saichi Takata, contador da plantação onde trabalhava, e teve duas filhas. Em 1930, Saichi faleceu, deixando-a responsável pelo sustento da família.
Após anos de trabalho intenso, Takata desenvolveu problemas sérios de saúde, incluindo dores abdominais, dificuldades respiratórias e sintomas nervosos. Mais tarde, com a morte de uma de suas irmãs, coube a ela viajar ao Japão para levar a notícia aos pais. Aproveitou a viagem para buscar tratamento médico.
Internada em um hospital, foi informada de que seria necessária uma cirurgia. No entanto, segundo sua própria narrativa, em determinado momento sentiu internamente que não deveria se submeter à operação. Conversou com o cirurgião e perguntou se existia alguma alternativa. Ele então mencionou um tipo de tratamento realizado em outra instituição e a encaminhou para a clínica de Chujiro Hayashi.
Na clínica, Takata começou a receber sessões de Reiki, geralmente aplicadas por dois praticantes ao mesmo tempo. Ela relatou que o calor nas mãos dos terapeutas era tão intenso que chegou a suspeitar da existência de aparelhos escondidos sob as mangas dos quimonos. Ao não encontrar nada, perguntou o que estava acontecendo e recebeu explicações sobre a técnica.
Após alguns meses de tratamento regular, Takata apresentou grande melhora e, segundo seu relato, obteve recuperação completa. Impressionada, pediu para aprender Reiki. Inicialmente, ouviu que isso não seria possível, pois a técnica era japonesa e não se pretendia ensiná-la a pessoas de fora do país. Insistiu, buscou apoio do cirurgião que a havia encaminhado e, com sua intermediação, obteve autorização.
Na primavera de 1936, Takata recebeu o primeiro nível de Reiki. Trabalhou com Hayashi durante cerca de um ano e, em seguida, recebeu o segundo nível. Em 1937, retornou ao Havaí. Pouco tempo depois, Hayashi e sua filha viajaram para lá, ajudando-a a estabelecer o Reiki em solo havaiano. No inverno de 1938, Hayashi conferiu a Takata o nível de mestra de Reiki. Ela foi a décima terceira e última mestra iniciada diretamente por ele.
Entre 1970 e sua morte, em 11 de dezembro de 1980, Takata formou 22 mestres. Esses mestres, por sua vez, formaram outros, e a partir da década de 1980 o Reiki se espalhou rapidamente pelas Américas, Europa, Oceania e outros lugares. Estimativas mencionadas em diferentes fontes apontam para dezenas de milhares de mestres.
É desse movimento que surgem a maior parte das linhagens de Reiki atualmente presentes no Ocidente.
A ramificação do Reiki
Com a morte de Hawayo Takata, em 1980, o Reiki entrou em uma nova fase no Ocidente. Sua neta, Phyllis Lei Furumoto, passou a ser reconhecida por muitos como sucessora no que se convencionou chamar de “Reiki Tradicional Usui” e fundou, em 1981, a Reiki Alliance, que mantém até hoje uma linha de ensino próxima da forma como Takata transmitia a técnica.
Paralelamente, diversos mestres passaram a desenvolver abordagens próprias, dando origem a novos estilos e sistemas de Reiki. Entre as mudanças mais comuns estão:
- Adaptações na estrutura dos níveis.
- Inclusão de novos símbolos ou técnicas complementares.
- Variações na forma de conduzir as iniciações.
- Ajustes no formato dos cursos, duração e valores.
Iris Ishikuro, uma das mestras formadas por Takata, já no meio da década de 80 começou a oferecer o mestrado por preços mais acessíveis — ou mesmo gratuitamente —, indo de encontro à prática de sua professora. Seu exemplo foi seguido por muitos de seus alunos e outros mestres, tornando a prática disponível a mais pessoas. Estima-se que hoje exista mais de um milhão de praticantes ativos no mundo.
Estimativas variadas citam de 50 a 300 diferentes sistemas de Reiki com ao menos alguns professores e um currículo estruturado. Essa diversidade também contribui para a difusão da técnica, mas pode gerar muitas dúvidas para quem está começando. Vale lembrar: a maior parte dos sistemas que hoje existem deriva, direta ou indiretamente, do trabalho de Hawayo Takata e, por consequência, de Hayashi e Usui. Diferenças de método indicam apenas escolhas pedagógicas e ênfases distintas. O que sustenta a prática é a seriedade do mestre, a qualidade da formação e a responsabilidade com que o Reiki é transmitido e utilizado.
Independentemente da escola ou ramificação, é adequado cultivar gratidão às fontes que tornaram possível a prática tal como a conhecemos hoje. No centro de todas essas variações permanece o legado de Mikao Usui, que estruturou um sistema simples, baseado na imposição de mãos e em princípios de vida, capaz de apoiar o equilíbrio e a harmonização de maneira acessível a qualquer pessoa.
Por que essa história importa para você, praticante de Nível 1
À primeira vista, todos esses nomes, datas e escolas podem parecer distantes do seu dia a dia. No entanto, conhecer a história do Reiki ajuda a colocar a sua prática em perspectiva.
Conhecer a história mostra que o Reiki surgiu de uma busca sincera por um caminho de cura e aperfeiçoamento interior, não como “produto espiritual” recente ou simplesmente um conjunto de técnicas. Isso ajuda a enxergar o curso de Nível 1 como entrada em uma tradição viva, transmitida de pessoa para pessoa.
Também esclarece por que existem tantos estilos e linhagens diferentes. Quase todas essas ramificações têm raízes comuns. Esse entendimento ajuda a fazer escolhas mais conscientes sobre cursos, mestres e caminhos de aprofundamento, e a avaliar a seriedade com que o método é ensinado e praticado.
A trajetória de Usui, Hayashi, Takata e tantos praticantes anônimos atesta que o Reiki sempre foi um caminho compartilhado. Ao receber a iniciação e começar a praticar, você passa a fazer parte dessa corrente. A forma como você se relaciona com a técnica, cuida de si mesmo e trata as pessoas que recebe também se torna, pouco a pouco, parte dessa história.
Nos próximos capítulos, veremos como a questão da linhagem se desdobra na prática e de que maneira você, como estudante de Nível 1, se insere de forma concreta nesse caminho.
