Por que existe tanta prevenção contra a Sociedade Teosófica?

Enviado por Estante Virtual em dom, 12/02/2012 - 21:09

P: Se a Teosofia é pelo menos a metade do que você diz, por que há de existir uma aversão tão terrível contra ela? Este é um problema ainda mais difícil do que todos os outros.

T: Realmente é; mas deve-se levar em conta os numerosos e poderosos adversários que temos desde que se formou nossa Sociedade. Como acabo de dizer, se o movimento teosófico fosse uma dessas loucuras tão inofensivas em seus resultados quanto passageiras, simplesmente ririam dele, como o fazem agora os que ainda não compreendem seu verdadeiro alcance; e absolutamente não se ocupariam dele. Mas não há nada disso. A Teosofia é intrinsecamente o movimento mais sério de nosso século; além disso, movimento que ameaça a existência da maior parte das farsas antigas, prejulgamentos e males sociais de nossos dias; esses males que engordam e fazem felizes aos poucos que estão em cima, assim como a seus imitadores e aduladores, alguns ricos da classe média, enquanto arruínam e matam de fome a milhões de pobres. Pense nisto e compreenderá facilmente o motivo de uma perseguição contínua por parte daqueles outros que, mais observadores e perspicazes, se dão conta da verdadeira natureza da Teosofia e conseqüentemente a temem.

 

P: Está querendo dar a entender que porque alguns compreenderam para onde conduz, a Teosofia, tratam de destruir o movimento? Se a Teosofia só conduz ao bem, seguramente não deve lançar tão tremenda acusação de crueldade desleal e traição contra esses poucos a que aludiu.

T: Pelo contrário, estou disposta a isto. Não chamo poderosos ou "perigosos" ao inimigos contra os que temos lutado durante os nove ou dez anos de existência da Sociedade, mas unicamente aos que nos têm atacado nestes três ou quatro últimos anos. E estes não falam, nem escrevem, nem pregam contra a Teosofia, mas trabalham em silêncio e cobertos por estúpidos bonecos, que atuam como fantoches. Embora invisíveis para muitos dos membros de nossa Sociedade, são bem conhecidos pelos verdadeiros fundadores e protetores. Mas, por certos motivos por enquanto convém calar seus nomes.

 

P: São conhecidos por muitos de vocês, ou é a única que os conhece?

T: Nunca disse que os conheço. Posso ou não conhecê-los, mas sei que existem, é o quanto basta; e os desafio a que façam o mal que desejam. Pode ser que consigam propagar muito dano e semear a confusão em nossas fileiras, particularmente entre as pessoas pusilânimes e as que somente julgam pelas aparências. Mas não matarão a Sociedade, embora façam o quanto possam para consegui-lo. Além desses inimigos perigosos (sem dúvida somente "perigosos" para aqueles teósofos indignos deste nome, cujo lugar é mais fora do que dentro da Sociedade Teosófica), o número de nossos adversários é mais que considerável.

 

P: Pode pelo menos nomear a estes, já que não quer falar dos outros?

T: Posso fazê-lo. Temos de lutar contra: 1) o ódio dos espíritas americanos, ingleses e franceses; 2) a oposição constante do clero de todas as classes; 3) especialmente contra o ódio violento e as perseguições dos missionários na índia, que deram lugar ao ruidoso e infame ataque a nossa Sociedade Teosófica por parte da Sociedade de Investigações Psíquicas, ataque instigado por uma conspiração organizada por eles. Por último, precisamos contar com as deserções de vários membros "eminentes" por razões que já expliquei, o que contribuiu para aumentar a prevenção que existe contra nós.

 

P: Não pode me dar alguns pormenores, pelo menos para saber responder, se me perguntarem? Em uma palavra: uma breve história da Sociedade e por que o mundo crê tudo isto?

T: A razão é simples. A maior parte dos que pertencem à Sociedade não sabia absolutamente nada da mesma, seus motivos, objetivos e crenças. Desde o princípio, o mundo não viu na Teosofia mais que certos fenômenos maravilhosos em que não crêem dois terços dos que não são espiritualistas.

Logo chegou-se a considerar a Sociedade Teosófica como uma associação que pretende a posse de poderes "milagrosos". O mundo jamais quis compreender que a Sociedade ensinava a incredibilidade absoluta com relação ao milagre, e até mesmo sua possibilidade; que apenas existiam na Sociedade umas poucas pessoas dotadas de tais poderes psíquicos, e poucas também que se ocupassem deles. Tampouco compreendeu que jamais se produziam os fenômenos publicamente, mas sim apenas em círculo privado, para alguns amigos; e produzidos meramente como um acessório, para provar, pela demonstração direta, que coisas semelhantes podiam ser realizadas sem quartos escuros, espíritos, médiuns, ou qualquer dos requisitos usuais. Desgraçadamente, este falso conceito se arraigou e exagerou consideravelmente, graças ao primeiro livro escrito sobre o assunto, livro que chamou muito a atenção na Europa: O Mundo Oculto, de Sinnet. Se esta obra fez bastante para fazer brilhar a Sociedade, atraiu sobre os desventurados heróis e heroínas desta, ainda maiores murmurações, falsidades e escárnio. Sobre isso, o autor de O Mundo Oculto foi sobejamente posto em guarda, mas não fez caso da profecia, que o era, embora velada[1].

 

P: Por que e desde quando os espíritas os odeiam?

T: Desde o primeiro dia da existência da Sociedade. Quando se soube que a Sociedade Teosófica como corporação não acreditava nas comunicações com os espíritos dos mortos, mas sim que olhava aos chamados "espíritos" como reflexos astrais de personalidades desencarnadas, cascões etc, os espíritas, em sua maior parte, conceberam um ódio violento contra nós, especialmente contra os fundadores. Este ódio manifestou-se em todos os órgãos espíritas americanos, por toda sorte de calúnias, de observações pessoais pouco caridosas, e mil noções errôneas e absurdas sobre as doutrinas teosóficas. Fomos perseguidos, denunciados e insultados durante muitos anos. Isto começou no ano de 1875 e continua hoje em dia. Em 1879 a sede da Sociedade Teosófica mudou-se de Nova York para Bombaim (Índia), e depois definitivamente para Madras. Quando foi fundada a primeira Rama de nossa Sociedade em Londres (Sociedade Teosófica Inglesa), os espíritas ingleses levantaram-se em armas contra nós, como haviam feito os americanos; seguidos logo dos espíritas franceses.

 

P: Mas por que razão encontram hostilidade no clero, quando, depois de tudo, a tendência principal das doutrinas teosóficas opõe-se ao materialismo, o grande inimigo de todas as formas de religião em nossos dias?

T: O clero se opõe a nós baseando-se no princípio geral de que: "Aquele que não está comigo, está contra mim". Como a Teosofia não concorda com nenhuma seita ou credo, é considerada como inimiga deles, porque ensina que todos estão mais ou menos equivocados. Os missionários na índia nos odiaram e trataram de nos destruir, porque viram que a mais florida juventude - a mais culta - assim como os brâmanes, que são inabordáveis para eles, uniam-se à Sociedade em grande número. E, sem dúvida, à parte esse ódio geral de classe, a Sociedade Teosófica conta com vários eclesiásticos em suas fileiras, e até um ou dois bispos.

 

P: Qual foi o motivo que induziu a S.P.R.[2] a combatê-los? Se de certo modo ambos visavam ao mesmo gênero de estudos, e vários membros da Sociedade de Investigações Psíquicas faziam parte de sua Sociedade?

T: No princípio éramos muito bons amigos dos chefes da S.P.R.; mas quando apareceu no Christian College Magazine um ataque sobre os fenômenos, apoiado nas pretensas revelações de um empregado, pareceu à S.P.R. que havia se comprometido ao publicar em suas "atas" demasiados fenômenos que tiveram lugar em união com a Sociedade Teosófica. Sua ambição é lançar-se como corporação autoritária e estritamente científica; assim foi que tiveram que eleger entre conservar esta posição, sacrificando a Sociedade Teosófica e até tratando de destruí-la, ou verem-se confundidos na opinião dos saduceus do grande mundo, com os "crédulos" teósofos e espíritas. O dilema não tinha escapatória e optaram pelo nosso sacrifício. Para eles foi uma necessidade cruel. Tinham tanto desejo de encontrar algum motivo aparentemente razoável para explicar a vida de abnegação e de incessante trabalho que levavam os dois fundadores, e a completa ausência de benefício pecuniário ou qualquer vantagem que a estes pudesse advir, que nossos inimigos viram-se obrigados a lançar mão da três vezes absurda, eminentemente ridícula e agora já famosa "teoria da espiã russa", para explicar essa abnegação. Mas o antigo refrão que diz que "o sangue dos mártires é a semente da Igreja", mais uma vez resultou exato. Depois do primeiro choque produzido por este ataque, a Sociedade Teosófica dobrou e triplicou o número de seus membros; mas a má impressão causada ainda se conserva. Tinha razão um autor francês quando dizia: "Calomniez, calomniez toujours et encore, il en restera toujours quelque chose". Por isso são tão comuns as prevenções contra a Sociedade Teosófica e tudo quanto com ela se relaciona, particularmente com seus fundadores; todos a falseiam e desfiguram, e apenas se fundamentam em rumores mal intencionados.

 

P: Mas durante os 14 anos de existência da Sociedade você teve tempo e oportunidade para apresentar sua obra, assim como a si mesma sob o verdadeiro aspecto.

T: Como e quando nos deram tal oportunidade? Nossos membros mais distintos tinham aversão a tudo o que se parecesse a uma justificação pública. Seu sistema sempre foi o de "de vemos deixar correr" e "que importa o que digam os jornais, ou o que pensem as pessoas?" A Sociedade era demasiado pobre para servir-se de oradores públicos, e, em conseqüência, a exposição de nossas opiniões e doutrinas teve que limitar-se a umas obras teosóficas que tiveram êxito, mas que as pessoas freqüentemente não compreendiam, ou somente conheciam de nome. Nossos jornais têm estado e ainda estão proibidos; nossas obras literárias são ignoradas, e até esta data, ninguém parece estar bem seguro se os teósofos são uma espécie de adoradores da "Serpente" e do "Demônio", ou simplesmente "buddhistas esotéricos", seja qual for a significação deste termo. Tem sido inútil que dia após dia, ano após ano, negássemos todos os contos absurdos e inconcebíveis que circulam sobre nós; porque apenas havia cessado um, nascia outro das cinzas do primeiro, ainda mas absurdo e pior intencionado. Infelizmente a natureza humana é constituída de tal maneira, que o bem que se diz de uma pessoa, esquece-se e não se volta a repetir. Mas basta proferir uma calúnia ou inventar uma história - - por absurda, falsa ou incrível que seja, contanto que se relacione com um nome impopular - - para que tenha êxito e se torne aceita para sempre como um fato histórico. Semelhante à calúnia de D. Basílio, surge o rumor, no princípio ligeiro como a brisa suave que nasce onde ninguém sabe e que apenas agita a erva que pisamos; transforma-se em vento forte, começa o temporal e converte-se em uma tempestade furiosa.

Entre as notícias uma calúnia é como o polvo entre os peixes: introduz-se na mente, apodera-se de nossa memória que com ela se alimenta, deixando sinais indeléveis mesmo depois de ter sido destruída materialmente. Uma mentira caluniosa é a única chave mestra capaz de abrir qualquer cérebro; e seguramente será bem acolhida e encontrará hospitalidade em toda mente humana, da mais elevada à mais baixa, se não estiver prevenida, não importando a origem e o motivo, por mais vis que sejam.

 

P: Não está sendo exagerada em sua afirmação? Os ingleses nunca foram precipitados em seus juízos, nem dispostos a acreditar no que falam, e nossa nação é conhecida por seu proverbial amor à lealdade. Uma mentira não se sustem em pé por muito tempo e...

T: Um inglês está tão disposto a acreditar no mal como um homem de qualquer outra nação, porque isto é próprio da natureza humana e não questão de caráter nacional. Quanto às mentiras, se precisam de pernas que a sustentem - como diz o provérbio -  têm asas excessivamente rápidas: podem voar e voam muito longe, e abrangem um círculo maior que qualquer outra espécie de notícias, tanto na Inglaterra como em outro lugar. Lembre-se de que as mentiras e a calúnia são a única espécie de literatura que sempre podemos adquirir grátis, sem pagar nenhuma subscrição. Se quiser, tente a experiência.

Já que se interessa tanto pelas questões teosóficas e que tanto ouviu falar de nós, quer fazer perguntas sobre todos aqueles rumores de que consiga lembrar-se? E eu responderei a verdade, nada além da verdade, sujeita à mais estrita comprovação.

 

P: Antes de passar a outro assunto, conheçamos toda a verdade com relação ao que agora nos ocupamos. Alguns escritores tacharam suas doutrinas de "imorais e perniciosas"; outros, fundamentando-se em que muitas das chamadas "autoridades" e os orientalistas somente encontram nas religiões hindus o culto sexual em suas várias formas, os acusam de não ensinar outra coisa além do culto fálico. Dizem que, uma vez que a Teosofia moderna relaciona-se tão intimamente com o pensamento oriental e particularmente o hindu, não pode livrar-se desta mancha. Em alguns casos chegam até o ponto de acusar aos teósofos europeus de ressuscitar as práticas que vêm unidas àquele culto. O que há sobre isso?

T: Já ouvi falar e li sobre esse ponto; e respondo que jamais foi inventada nem propagada calúnia mais infundada. Diz um provérbio russo: "os tolos somente podem ter sonhos tolos". Revolta ouvir acusações tão baixas, lançadas sem o menor fundamento e devidas a simples deduções. Pergunte às centenas de honrados ingleses e inglesas que há anos são membros da Sociedade Teosófica, se alguma vez lhes foi ensinado algum preceito imoral ou alguma doutrina perniciosa. Abra a Doutrina Secreta e veja que em todas as suas páginas denuncia aos judeus e outras nações, precisamente por essa devoção aos ritos fálicos, filha da interpretação da letra morta do simbolismo da natureza e dos conceitos grosseiramente materialistas de seu dualismo, em todos os credos exotéricos. Essa incessante e maliciosa desnaturalização de nossas doutrinas e crenças é verdadeiramente deplorável.

 

P: Mas sem dúvida não pode negar que existe o elemento fálico nas religiões do Oriente.

T: Não o nego; apenas sustento que isto não prova nada, como tampouco o prova sua presença no cristianismo — a religião do Ocidente. Leia Os Rosa-cruzes, de Hargrave Jenning, se deseja certificar-se disso. O simbolismo fálico é talvez mais cru no Oriente, porque é mais fiel à natureza, ou mais ingênuo e sincero que no Ocidente. Mas não é mais licencioso, nem sugere à mente oriental as mesmas idéias grosseiras e indecentes que à ocidental, talvez com exceção de uma ou duas, como por exemplo, a vergonhosa seita conhecida como Maharajah ou Vallabhachãrya.

 

P: No jornal O Agnóstico, um de seus acusadores acaba de dar a entender que os discípulos dessa seita são teósofos, e que "pretendem possuir o verdadeiro conhecimento teosófico".

T: Escreveu uma falsidade e nada mais. Nunca houve e nem há no momento um só Vallabhachãrya em nossa Sociedade. Quanto à pretensão com respeito aos conhecimentos teosóficos, isto é outro conto fundamentado na ignorância sobre as seitas hindus. Seu "Maharajah" somente pretende ter direito ao dinheiro, às mulheres e às filhas de seus tolos partidários: nem mais nem menos. Tal seita é desprezada por todos os outros hindus. Mas na Doutrina Secreta este assunto é tratado extensamente, e solicito que recorra a ela para explicações mais minuciosas. Em conclusão, direi que a própria alma da Teosofia é inimiga implacável do culto fálico, e, mais ainda, que nas doutrinas esotéricas - na seção oculta ou esotérica - ele é abominado. Agora faça-me outras perguntas.



[1] O leitor pode consultar com proveito a obra mencionada, assim como a do mesmo autor Incidentes na Vida de Madama Blavatskv, e a História Autêntica da Sociedade Teosófica (Old Diary Leaves), de H. S. Olcott. — (E.)

[2] Sociedade de Investigações Psíquicas. — (E.)

 

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