Clarividência no Tempo: O Futuro

Enviado por Estante Virtual em dom, 01/22/2012 - 03:02

Mesmo que, de um modo vago, nos sintamos capazes de compreender a idéia de que todo o passado pode estar simultânea e ativamente presente numa consciência suficientemente elevada, defrontamo-nos com uma dificuldade muito maior quando tentamos conceber como é que também todo o futuro pode ser compreendido nessa consciência. Se pudéssemos crer na doutrina maometana do Kismet, ou na teoria calvinística da predestinação, a concepção nada teria de difícil, mas, sabendo, como sabemos, que ambas são grotescas deformações da verdade, temos que procurar uma hipótese mais aceitável. 

Talvez ainda haja indivíduos que neguem a possibilidade da previsão, mas isso prova apenas que ignoram a evidência que há sobre o assunto. O grande número de casos autenticados não deixa lugar para dúvidas quanto ao fato da previsão, mas muitos deles são de tal natureza que tornam difícil de encontrar uma explicação razoável. E evidente que o Eu possui uma certa dose de poder previsor, e, se os acontecimentos previstos fossem sempre de grande importância, poder-se-ia supor que uma excitação extraordinária o tinha tornado capaz, por essa vez só, de dar uma impressão nítida do que vira à sua personalidade inferior. Sem dúvida que é essa a explicação para muitos dos casos em que se prevê a morte ou qualquer catástrofe gravíssima, mas há um grande número de casos conhecidos para os quais essa explicação não serve, visto que os acontecimentos previstos são muitas vezes extremamente triviais e sem importância. 

Para exemplificar, citarei um caso bem conhecido de dupla vista, que se deu na Escócia. Um indivíduo, que não acreditava no oculto, foi avisado por um vidente escocês do próximo falecimento de um vizinho. A profecia foi dada com uma grande abundância de detalhes, incluindo uma descrição completa do enterro, com os nomes dos quatro indivíduos que pegariam nas borlas e de outras pessoas que estariam presentes. O ouvinte parece ter rido da história e tê-la esquecido prontamente; a morte do tal vizinho no dia indicado relembrou-lhe, porém, a profecia, e ele decidiu fazer errar pelo menos parte dela, tornando-se ele um dos que pegavam às borlas. Conseguiu arranjar as cousas como queria, mas, exatamente quando o préstito ia sair, chamaram-no à parte para qualquer assunto de somenos importância e que o demorou apenas um ou dois minutos. Ao voltar à pressa, viu com surpresa que o préstito ia saindo sem ele, e que a profecia se verificava plenamente, visto que iam pegando às borlas os quatro indivíduos que o vidente lhe indicara. 

Ora aí está um assunto trivial, que não podia ser de importância para alguém, previsto nitidamente com alguns meses de antecedência, e, conquanto um indivíduo se esforce conscientemente por alterar os fatos indicados, essa tentativa resulta impotente para os alterar. Por certo que isto se assemelha muito à predestinação, mesmo nos seus mínimos detalhes, e é só quando examinamos este assunto desde os planos superiores que podemos achar meio de escapar a essa teoria. Está claro que — como já antes disse a propósito de outro ramo do assunto — uma explicação completa ainda nos escapa, e evidentemente nos escapará enquanto o nosso conhecimento não for infinitamente maior do que hoje é; o mais que podemos esperar fazer por enquanto é indicar a direção na qual uma explicação deve ser encontrada. 

Não há dúvida nenhuma que, exatamente como o que está agora acontecendo é o resultado de causas postas em ação no passado, assim o que acontecerá no futuro será o efeito de causas já operantes. Mesmo aqui, neste mundo, podemos calcular que, se certas ações são praticadas, certos resultados se seguirão, mas o nosso cálculo tende a ser constantemente perturbado pela intervenção de fatores com que não podemos contar. Mas, se elevarmos a nossa consciência até ao plano mental, poderemos ver muito mais longe os resultados das nossas ações. 

Podemos seguir, por exemplo, o efeito de uma palavra casual, não só sobre a pessoa a quem foi dirigida, mas através dela, sobre muitas outras, à medida que se propaga em círculos cada vez maiores, até afetar todo o país; e um só vislumbre de uma visão destas vale mais do que muitos preceitos morais para nos gravar no espírito a necessidade de um cuidado extremo em tudo quanto pensamos, dizemos ou fazemos. Não só podemos nós, de aquele plano, ver assim completamente o resultado de cada ação, mas podemos ver também onde e de que maneira os resultados de outras ações, aparentemente sem relação com ela, a virão perturbar e modificar. Pode, de fato, dizer-se que os resultados de todas as causas atualmente operantes, são claramente visíveis — que o futuro, como seria se nenhumas novas causas surgissem, está patente à nossa vista. 

É claro que surgem novas causas, porque a vontade humana é livre; mas, no caso de toda a gente vulgar, o uso que farão da sua liberdade pode ser calculado de antemão com uma justeza considerável. O homem médio tem tão pouca vontade real, que é em grande parte um produto das circunstâncias; a sua ação em vidas anteriores coloca-o em determinadas circunstâncias, e a sua influência nele é a tal ponto o fator mais importante na história da sua vida que o seu curso futuro pode ser predito com uma certeza quase matemática. Com o homem evoluído o caso é já diferente; para ele também os principais acontecimentos da vida são ordenados pelas suas ações no passado, mas o modo como ele deixará que elas o afetem, os • métodos pêlos quais, tratará delas e talvez delas triunfará — esses são inteiramente seus e não podem ser previstos mesmo no plano mental exceto como probabilidades. 

Olhando, assim, de alto, para a vida do homem, parece-nos que o seu livre-arbítrio só poderá ser exercido em certas crises na sua carreira. Ele chega a um ponto da vida onde há evidentemente diante dele dois ou três caminhos por onde seguir; tem plena liberdade de escolher o que quiser, e, conquanto alguém que lhe conhecesse bem a índole pudesse ter quase a certeza de qual seria a sua escolha, tal conhecimento da parte do seu amigo não é de modo algum uma força compulsora. 

Mas quando ele escolheu, de vez, terá de ir para a frente e aceitar as conseqüências; tendo entrado para determinado caminho, pode, em muitos casos, ser forçado a continuar durante muito tempo antes que tenha uma oportunidade de se desviar dele. A sua situação é análoga à do maquinista de um comboio; quando chega a um entroncamento, pode entrar para esta ou aquela linha, mas, uma vez entrado para ela, tem que seguir por ela fora até chegar a outro entroncamento, onde possa novamente escolher um de dois caminhos. 

Ora, olhando para baixo desde o plano mental, estes pontos de novo caminho seriam claramente visíveis, e todos os resultados da escolha que fizéssemos estariam patentes a nossos olhos, certos de se realizar nos seus mínimos detalhes. O único ponto que ficaria incerto seria aquele, importantíssimo, sobre qual seria o caminho que o indivíduo escolheria. Teríamos, na verdade, não um, mas vários futuros patentes aos nossos olhos, sem podermos necessariamente determinar qual deles é que se materializaria num fato consumado. Na maioria dos casos, veríamos uma das probabilidades tão superior às outras que não hesitaríamos em decidir qual o caminho que o indivíduo seguiria, mas, ainda assim, o caso que indiquei não deixa de ser teoricamente possível. Seja como for, mesmo esse conhecimento, tal qual é, tornar-nos-ia capazes de prever com segurança muita cousa; nem nos é difícil imaginar que um poder muito mais elevado que o nosso possa sempre prever para que lado a escolha se inclinará, e por isso vaticinar sempre com uma segurança absoluta. 

No plano búdico, porém, não é já preciso um tal longo processo de cálculo consciente, porque (como já disse) de uma maneira que nós aqui não percebemos, o passado, o presente e o futuro existem ali simultaneamente. Apenas podemos aceitar este fato, porque a sua causa está na faculdade correspondente a tal plano, e o modos operandi dela é, como é de supor, inteiramente incompreensível ao cérebro físico. Mas de vez em quando encontramos uma sugestão que nos pode aproximar um pouco mais de uma vaga possibilidade de compreensão. Uma sugestão desse gênero foi dada pelo Dr. Oliver Lodge no seu discurso presidencial à Associação Britânica em Cardiff. Disse ele: 

"É uma idéia luminosa e auxiliadora essa de que o tempo não seja senão um meio relativo de ver as cousas; atravessamos os fenômenos com uma certa velocidade definida, e interpretamos este avanço subjetivo de uma maneira objetiva, como se os acontecimentos se passassem também nessa ordem e exatamente com essa velocidade. Mas pode ser que isso não seja senão uma maneira de ver as cousas. Pode bem ser que os acontecimentos estejam sempre existentes, tanto os do passado como os do futuro, e que sejamos nós que constantemente passemos por eles, e não eles que aconteçam. A analogia de um indivíduo num comboio é, para este caso, muito útil; se ele nunca pudesse sair do comboio ou alterar a sua velocidade, naturalmente julgaria as paisagens necessariamente sucessivas, sendo incapaz de conceber a sua coexistência ... Ocorre-nos, pois, a possibilidade de haver no tempo um aspecto quadridimensional, sendo portanto o decorrer inexorável do tempo apenas uma parte natural das nossas atuais limitações. E, se compreendermos bem a idéia de que o passado e o futuro possam realmente estar existindo agora, podemos conceder que eles possam ter uma influência dominadora sobre todas as ações presentes, podendo os dois, juntos, constituir aquele "plano superior" ou totalidade das cousas que somos levados a buscar, em relação à direção da forma ou determinismo, e a ação dos seres humanos conscientemente dirigida para um fim nítido e preconcebido." 

O tempo não é, realmente, de modo algum a quarta dimensão; mas considerálo, de momento, desse ponto de vista não deixa de ser útil para de algum modo podermos atingir o inatingível. Suponha-se que temos um cone de madeira apontado perpendicularmente para uma folha de papel, e que pouco a pouco o fazemos atravessar essa folha, começando pelo vértice. Um micróbio que vivesse na superfície dessa folha de papel, sem poder conceber qualquer cousa fora dessa superfície, não só nunca poderia ver o cone como um todo, mas nem sequer poderia formar conceito nenhum de um tal corpo. Apenas veria o súbito aparecimento de um pequeno círculo, que pouco a pouco e misteriosamente iria crescendo até desaparecer do seu mundo tão súbita e misteriosamente como tinha chegado. 

Assim, o que era realmente várias seções do cone pareceria a esse micróbio apenas fases sucessivas na vida de um círculo, e ser-lhe-ia essas fases se podiam ver impossível formar a idéia de que simultaneamente. E contudo é-nos fácil, a nós, vendo o fato de uma outra dimensão, ver que o micróbio é vítima de uma ilusão originada nas suas limitações, e que o cone existe sempre como conjunto. A nossa ilusão com respeito ao passado, ao presente e ao futuro talvez não seja diferente, e a visão que se tem de qualquer seqüência de acontecimentos desde o plano búdico corresponde a essa noção do cone como conjunto. É claro que qualquer tentativa de tornar clara no nosso espírito esta idéia dá conosco numa série de paradoxos confusos; mas o fato continua sendo verdadeiro, e o tempo virá quando será claro como o dia para nós.

Quando a consciência do aluno está completamente desenvolvida no plano búdico, a previsão perfeita é-lhe portanto possível, ainda que ele não possa — com certeza que não pode — trazer todo o resultado da sua visão completa e claramente para esta luz. Ainda assim, uma grande quantidade de lúcida previsão lhe é possível sempre que ele a queira exercer; e mesmo quando ele a não esteja exercendo,- vislumbres freqüentes de previsão lhe aparecem na vida quotidiana, de modo que muitas vezes tem uma intuição instantânea de como as cousas vão acontecer antes que elas sequer esbocem esse caminho. 

Aquém desta previsão perfeita, vemos, como nos casos anteriores, que existem todos os graus deste tipo de clarividência, desde os casuais vagos pressentimentos a que se não pode chamar vidência, até a dupla vista freqüente e mais ou menos perfeita. A faculdade, a que se tem dado este nome, aliás pouco claro, de "dupla vista", é muito interessante e bem compensaria um estudo mais cuidadoso e sistemático do que até aqui dela se tem feito. 

Essa faculdade é especialmente conhecida de nós como muitas vezes possuída pêlos highlanders escoceses, ainda que se não limite a eles. Exemplos casuais da sua posse têm aparecido em quase todas as nações, mas sempre tem sido mais freqüente entre montanheses e gente de vida solitária. Nós, em Inglaterra, geralmente falamos dela como sendo apanágio exclusivo da raça celta, mas a verdade é que se tem revelado em toda a parte do mundo entre povos semelhantemente situados. Diz-se, por exemplo, que é vulgaríssima entre os camponeses da Westfália. 

Por vezes a dupla vista consiste num quadro mostrando claramente qualquer acontecimento futuro; mais freqüentemente, porém, o vislumbre do futuro é dado por qualquer visão simbólica. É de notar que os acontecimentos previstos são invariavelmente os desagradáveis — sendo a morte o mais vulgarmente previsto; não me ocorre caso algum em que a dupla vista haja revelado qualquer cousa que não fosse triste. Ela tem um horrível simbolismo que lhe é próprio — um simbolismo de mortalhas e tochas e outros horrores fúnebres. Em alguns casos parece depender, até certo ponto, da localidade, porque se diz que os habitantes da ilha de Skye que possuem esta faculdade muitas vezes a perdem quando saem da ilha, ainda que seja apenas numa pequena viagem à outra costa. O dom de uma tal visão é por vezes hereditário numa família durante gerações, mas esta regra não é invariável, porque a dupla vista às vezes aparece esporadicamente num indivíduo pertencente a uma família livre da sua triste posse. 

Já citamos um exemplo em que a nítida visão de um acontecimento futuro se deu, por meio da dupla vista, com alguns meses de antecedência. Vamos citar outro, mais notável ainda, que relato exatamente como me foi contado por um dos que nele tomaram parte. 

"Metemo-nos pelo jungle dentro e havia uma hora que caminhávamos sem resultado, quando o Cameron, que por acaso estava a meu lado, de repente parou, empalideceu, e, apontando em frente, disse numa voz cheia de terror: 

"Olhem! olhem! por amor de Deus, olhem para ali!" 

"Onde? o quê? o que é?!" perguntamos todos confusamente, correndo para ele e olhando em roda e esperando encontrar um tigre, uma cobra nem sabíamos o quê, mas por certo qualquer cousa horrorosa, visto que fora o bastante para causar ao nosso camarada, em geral tão seguro dos seus nervos, uma emoção tão visível. Mas não se via tigre nem cobra — nada senão o Cameron, lívido, de olhos esbugalhados, a apontar para qualquer cousa que nós não víamos. 

"Cameron! Cameron!" disse eu, sacudindo-o pelo braço, "fala por amor de Deus! O que é que aconteceu?

"Mal tinha dito isto quando ouvi um som leve, mas muito estranho, e o Cameron, deixando cair a mão com que apontava, disse numa voz tensa e trêmula, "Ouviste? ouviste? Graças a Deus que acabou!" e caiu no chão sem sentidos. 

"Houve uns momentos de confusão enquanto lhe desapertávamos o colarinho e eu lhe borrifava a cara com alguma água, que felizmente trouxera comigo, e outro lhe tentava fazer beber uns goles de aguardente; e, enquanto isto se fazia, perguntei em segredo ao indivíduo a meu lado (um dos mais cépticos entre nós, por sinal). "Você ouviu qualquer cousa, Beauchamp?" 

"Sim, lá isso ouvi", respondeu; "um som curioso, muito curioso; uma espécie de estrondo ou estralejar muito longe, mas perfeitamente nítido; se não fosse inteiramente impossível, era capaz de jurar que era o som de uma descarga." 

"E exatamente a impressão que eu tive", murmurei; "mas basta! ele já está melhor. " 

"Num minuto ou dois o Cameron já podia falar e começou por nos agradecer e por pedir desculpa de nos dar todo este trabalho; de aí a pouco sentouse contra uma árvore e, numa voz firme, se bem que ainda baixa, disse: 

"Meus caros amigos, sinto que lhes devo uma explicação por causa do meu procedimento extraordinário. É uma explicação que eu muito preferia não dar; mas, como ela tem de vir, tanto faz dá-la agora como depois. Sem dúvida que já repararam que quando durante a nossa viagem vocês todos, falando de sonhos, visões, etc., riam de tudo isso, eu fugi sempre a dar qualquer opinião sobre o assunto. Fi-lo, não só porque não queria acarretar sobre mim o ridículo, ou, mesmo, estabelecer discussão, mas também porque sabia perfeitamente, pela minha própria triste experiência, que o mundo a que os homens costumam chamar do sobrenatural é tão real como — talvez mais real do que — este mundo que vemos à nossa roda. Em outras palavras, eu, como tantos outros escoceses meus compatriotas, tenho o maldito dom da dupla vista — essa terrível faculdade que prevê em sonhos calamidades que breve acontecerão. 

"Foi uma visão dessas que acabo de ter, e o seu grande horror comoveu-me ao ponto que viram. Vi diante de mim um cadáver — não de um indivíduo que tenha morrido uma morte natural e sossegada, mas da vítima de qualquer terrível desastre; uma massa horrível, sem forma, com uma cara inchada, esmagada, impossível de conhecer. Vi este horrível objeto ser metido num caixão, e rezado sobre ele o serviço fúnebre. Vi o cemitério, vi o padre; e, se bem que nunca os tivesse visto antes, tenho ambos presentes agora mesmo na minha visão anterior; vi-me a você, a mim, ao Beauchamp, a todos nós e a muitos mais, em volta do caixão; vi os soldados erguer as espingardas depois do fim dos reponsos; ouvi a descarga — e foi então que desmaiei." 

"Quando ele falou dessa descarga, senti um arrepio e olhei para o Beauchamp; nunca me esquecerá a expressão de profundo horror que havia no rosto daquele céptico." 

Isto não passa de um incidente (e de modo algum o principal) numa notabilíssima história de experiência psíquica, mas, como de momento estamos apenas tratando do exemplo de dupla vista que figura nessa história, basta que se diga que, mais tarde no mesmo dia, o grupo de militares, de que falamos, encontrava o seu comandante na horrorosa condição tão nitidamente descrita pelo sr. Cameron. A narrativa continua: "Quando, na noite seguinte, chegamos ao nosso destino, e que a nossa triste narrativa tinha sido devidamente registrada pelas autoridades competentes, o Cameron e eu fornos dar um pequeno passeio, para ver se a influência tranquilizadora da natureza nos tirava pelo menos parte da tristeza que nos acabrunhava. De repente ele agarrou-me no braço, e, apontando através duma pequena divisória, disse numa voz trêmula, "Olha! lá está! lá está o cemitério que vi ontem." E quando, mais tarde, fomos apresentados ao capelão do posto, reparei, ainda que os meus companheiros o não fizessem, no arrepio irreprimível que percorreu o corpo do Cameron ao apertar a mão do sacerdote, e vi que tinha reconhecido o oficiante no enterro da sua visão." 

Quanto à explicação oculto de tudo isto, parece-me que a visão do sr. Cameron foi um puro caso de dupla vista, e, se assim é, o fato de que os dois indivíduos que estavam mais perto dele (um com certeza — e talvez os dois — tocando-lhe mesmo) tomaram parte nessa visão, pelo menos quanto a ouvir a descarga final, ao passo que tal não aconteceu aos que estavam mais afastados, indica que a intensidade com que a visão se imprimiu no vidente ocasionou vibrações no seu corpo mental que se comunicaram àquelas pessoas em contato com quem estava, como na vulgar transmissão de pensamento. Quem quiser ler o resto da história encontrá-la-á nas páginas de Lúcifer, vol. XX, p. 457. 

Podíamos com facilidade reunir dezenas de exemplos de natureza idêntica a este. Com respeito à variedade simbólica desta vista, diz-se vulgarmente entre os que a possuem que se, ao encontrarem um vivo, vêem uma mortalha envolvendo-o, isso é sinal seguro da sua própria morte. A data da doença que o vitimará é indicada, quer pelo ponto a que a mortalha lhe envolve o corpo, ou pela hora do dia a que se vê a visão; porque se é de manhã, cedo, dizem que o indivíduo morrerá nesse mesmo dia, mas se for de tarde, que será apenas durante o ano. 

Outra variante (e notável) de forma simbólica da dupla vista é aquela em que a pessoa, cuja morte por aí se prevê, surge ao vidente numa aparição sem cabeça. Um caso deste gênero é citado em Sinais antes da Morte como tendo acontecido na família do dr. Ferrier, ainda que aí, se bem me lembro, o caso se não tivesse dado senão à hora da morte, ou muito perto dela. 

Passando do caso de videntes que estão regularmente de posse de uma certa faculdade, ainda que as manifestações dela apenas algumas vezes estejam subordinadas à sua vontade, encontramos um grande número de casos isolados de previsão em indivíduos em quem essa faculdade não é de modo algum regular e certa. Talvez que a maioria destes aconteçam em sonhos, se bem que haja exemplos de visões dessas em vigília. As vezes a previsão diz respeito a um acontecimento de real importância para o vidente, e assim justifica a ação do Eu em ter o trabalho de a fixar. Em outros casos, o acontecimento é sem importância aparente, ou não tem relação alguma com o indivíduo que o vê. As vezes é claro que a intenção do Eu (ou da entidade comunicadora, seja ela qual for) é avisar a personalidade inferior da aproximação de qualquer calamidade, quer para que essa calamidade se evite, quer (se isso não for possível) para que a dor, que causa, seja diminuída pela preparação. 

O acontecimento mais vulgarmente assim previsto é (talvez porque assim é natural) a morte — às vezes a morte do próprio vidente, às vezes a de alguém que lhe é caro. Este gênero de previsão é tão vulgar na literatura do assunto, e o seu fim tão evidente, que escusamos de citar exemplos dela; mas um ou dois casos em que a visão profética, ainda que claramente útil, ainda assim foi de um tipo menos sombrio, talvez tenham algum interesse para o leitor. O que segue é tirado daquele repositório do estudioso das cousas estranhas, O Lado Noturno da Natureza, de Mrs. Crowe, à p. 72. 

"Há alguns anos o dr. Watson, atualmente residente em Glasgow, sonhou que era chamado para ver um doente que morava a uma distância de algumas milhas do lugar onde vivia; que partiu para lá a cavalo, e que, ao atravessar uma charneca, viu, correndo para o atacar, um touro, a cujo assalto, só escapou fugindo para um lugar inacessível ao animal, onde se demorou muito tempo até que apareceu vária gente que, observando a sua situação, veio em seu auxílio e o soltou. 

"Estava a almoçar na manhã seguinte, quando veio a chamada; achando graça à curiosa coincidência (pois assim lhe pareceu), montou a cavalo e partiu. Não conhecia a estrada por onde tinha que seguir, mas de aí a pouco chegava à charneca, que reconheceu, e instantes depois surgia o touro, correndo para ele furiosamente. Mas o sonho tinha-lhe revelado o lugar de refúgio, para onde se dirigiu imediatamente; ali passou três a quatro horas, sitiado pelo touro, até que vieram uns camponeses que o livraram. O dr. Watson declara que, se não fosse o seu sonho, não teria sabido em que direção correr para se salvar." 

Um outro caso, em que um intervalo muito maior ocorreu entre o aviso e o fato, é dado pelo dr. F. G. Lee, em Vislumbres do Sobrenatural, vol. I, p. 240. 

"Mrs. Hannah Green, governante duma família da província em Oxford, sonhou uma vez que tinha ficado sozinha em casa num domingo à noite, e que, ouvindo bater à porta principal, a tinha ido abrir, encontrando um vadio mal encarado, armado de um cacete, que quis imediatamente meter-se pela casa dentro. Parece-lhe que, no sonho, ela tentou resistir e evitar a entrada do homem, mas sem o conseguir, pois que, agredida por ele e caindo no chão sem sentidos, ele pôde então entrar à vontade. Nisto acordou. 

"Como durante bastante tempo nada acontecesse, o sonho foi-lhe esquecendo, e, como ela própria diz, acabou por já não pensar nele. Sete anos depois, porém, esta mesma governante ficou com duas outras criadas a tomar conta de uma casa um pouco isolada em Kensington (que veio depois a ser a casa de cidade da mesma família), quando, numa noite de domingo, tendo ambas as criadas saído e estando só ela em casa, uma pancada à porta de repente a sobressaltou. 

"De repente a memória do seu antigo sonho voltou-lhe com uma estranha e forte vividez; ela sentiu agudamente a sua situação isolada. Por isso, tendo imediatamente acendido um candeeiro no átrio — e durante este tempo todo continuavam a bater à porta — tomou a precaução de ir espreitar pela janela que do patamar de cima dava sobre a porta da rua; foi grande o seu terror quando viu, em carne e osso, o indivíduo que havia anos havia visto no seu sonho, armado com o mesmo cacete e exigindo que lhe abrissem a porta. 

"Com grande presença de espírito, ela desceu à entrada principal, correu quantos mais fechos ela tinha, tornou mais seguras as janelas, tocou quantas campainhas havia na casa e iluminou os quartos do primeiro andar. Parece que isto tudo teve o desejado efeito, pois que o vadio desapareceu." 

Evidentemente que também neste caso o sonho foi realmente útil, visto que, se o não tivesse tido, a governante teria sem dúvida aberto a porta, como de costume, quando ouviu bater. 

Não é, porém, só em sonhos que o Eu fixa na sua personalidade inferior aquilo que julga bom que ela saiba. Muitos casos desta ordem podiam ser extraídos dos livros, mas, em lugar de citar de ali, referirei um caso que há algumas semanas me contou uma senhora minha conhecida — um caso que, ainda que o não realce nenhum incidente romântico, tem pelo menos a vantagem de ser novo. 

Essa senhora tem duas filhas pequenas, e há pouco uma delas apanhou (julgava a mãe) uma grande constipação, sofrendo durante alguns dias de uma obstrução completa na parte superior do nariz. A mãe ligou pouca importância a isto, julgando que breve passaria; até que um dia, de repente, viu diante de si no ar o que ela descreve como sendo um quadro de um quarto, ao centro do qual estava uma mesa em que a filhita jazia imóvel ou morta, estando vários indivíduos debruçados sobre ela. Ela viu a cena nos seus mínimos detalhes, e especialmente reparou que a pequena tinha uma camisa de noite branca, o que estranhou, porque todas que tinha eram cor de rosa. 

A visão impressionou-a bastante, e pela primeira vez fez com que lhe ocorresse que talvez a criança tivesse qualquer cousa mais séria do que uma constipação, em vista do que levou-a ao hospital para a examinarem. O médico que a atendeu descobriu que ela tinha um pólipo no nariz, que devia ser quanto antes extraído. Poucos dias depois, a criança foi levada para o hospital, para a operarem, e deitada numa cama. Quando a mãe chegou ao hospital, viu que se tinha esquecido de trazer uma camisa de noite da pequenita, de modo que as enfermeiras tiveram de arranjar uma, que era branca. Com esta camisa branca vestida é que a criança foi, no dia seguinte, operada, no quarto que a mãe tinha visto na visão, cujos detalhes, todos, exatamente se deram. 

Em todos estes casos a previsão conseguiu o resultado para que viera, mas os livros estão cheios de avisos a que não se prestou atenção ou se não deu importância, e das desastrosas cousas que vieram a acontecer. Nalguns casos a informação é dada a alguém que mal se pode dizer que possa intervir no assunto, como no histórico exemplo em que John Williams, gerente de uma empresa mineira em Cornwall, previu, nos seus mínimos detalhes, oito ou nove dias antes de se dar, o assassínio do sr. Spencer Perceval, então Chanceler das Finanças, no átrio da Casa dos Comuns. Mesmo neste caso, porém, é vagamente possível que alguma cousa se pudesse ter feito, por1 que lemos que o sr. Williams ficou tão impressionado que consultou amigos sobre se deveria ou não ir a Londres avisar o sr. Perceval. Infelizmente eles dissuadiram-no disso, e o assassínio deu-se. Não parece, de resto, muito provável que, mesmo se ele tivesse ido a Londres e contado a sua história, lhe ligassem grande importância, mas, em todo o caso, sempre é possível que se houvessem tomado algumas medidas preventivas, pelas quais o assassínio se evitasse. 

Poucos elementos temos que nos mostrem que ação especial nos planos superiores levou a esta curiosa visão profética. Os dois indivíduos não eram conhecidos, de modo que a visão não foi causada por nenhuma simpatia pessoal. Se se trata de uma tentativa de qualquer Auxiliar para evitar o acontecimento, parece estranho que não se encontrasse uma criatura impressionável mais perto do que em Cornwall. Talvez que o sr. Williams, quando no plano astral durante o sono, de qualquer modo encontrasse essa imagem do futuro, e, assustando-o ela (o que é naturalíssimo), assim a passasse ao seu ser inferior, na vaga esperança de que qualquer cousa se pudesse fazer para a evitar; mas é impossível fazer do caso um diagnóstico acurado sem examinar os registros akáshicos para ver o que é que na verdade aconteceu. 

Um caso típico da previsão absolutamente inútil é aquele que conta o sr. Stead, no seu livro Histórias Verdadeiras de Espectros (p. 83) a propósito da sua conhecida Miss Freer, mais citada como Miss X. Quando estava passando uns dias numa casa de campo, esta senhora, estando perfeitamente desperta e consciente, viu uma vez uma charrete, puxada por um cavalo branco, parada â porta da casa; nela estavam dois estranhos, um dos quais desceu da charrete e ficou a brincar com um cão que por ali andava. Ela reparou que esse indivíduo estava de sobretudo e viu também, nítidos, os sinais recentes das rodas da charrete na terra. Mas, ao tempo, não estava ali carro nenhum; meia hora depois, porém, surgiram dois estranhos dentro duma charrete, e a visão, que essa senhora havia tido, realizou-se em todos os seus detalhes. O sr. Stead cita, a seguir, um outro caso de previsão igualmente inútil, onde sete anos mediaram entre o sonho (dessa vez tratava-se de um sonho) e a sua realização. 

Todos estes casos (e são apenas exemplos citados ao acaso de entre muitas centenas deles) mostram que uma certa dose de previsão é sem dúvida possível ao Eu, e estes casos seriam sem dúvida muito mais freqüentes se não fosse a excessiva densidade e falta de vibração correspondente nos instrumentos inferiores da maioria do que nós chamamos a humanidade civilizada — qualidades principalmente atribuíveis ao crasso materialismo prático da nossa época. Não me refiro a qualquer profissão de fé materialista como sendo cousa vulgar, mas sim ao fato de que nas cousas práticas da vida quotidiana quase toda a gente é guiada apenas por considerações de interesse material de uma forma ou outra. 

Em muitos casos o próprio Eu pode ser um Eu pouco desenvolvido, e a sua previsão, por conseguinte, muito vaga; em outros poderá, ele, ver claro, mas possuir instrumentos inferiores tão pouco impressionáveis que apenas consiga imprimir ao cérebro um vago presságio de desgraça iminente. Há, ainda, casos em que uma previsão é obra, não do Eu, mas de qualquer entidade exterior, que, por qualquer razão, sente interesse pela pessoa a quem dá esse sentimento. Na obra que citei, o sr. Stead refere-se à certeza, que teve muitos meses antes, de que assumiria a direção da Pall MaU Gazette ainda que, de um ponto de vista normal, nada parecesse menos provável. Se esse pré-conhecimento foi resultado de uma impressão dada pelo seu próprio Eu ou de qualquer aviso amigável de qualquer entidade estranha, é impossível dizer sem que se investigue, mas o fato é que a confiança nesse pressentimento foi amplamente justificada. 

Há ainda uma variedade de clarividência no tempo que não deve passar sem referência. É relativamente rara, mas há dela bastantes exemplos para que a devamos referir, ainda que, infelizmente, os detalhes dados em geral não incluam aqueles que nos seriam essenciais para que pudéssemos fazer um diagnóstico seguro. Refiro-me aos casos em que exércitos espectrais ou rebanhos espectrais foram vistos. Em O Lado Noturno da Natureza (p. 462 et seqs.*) temos vários exemplos dessas visões. Ali se conta como em Havarah Park, ao pé de Ripley, vários batalhões de soldados — umas centenas, ao todo — foram vistos, por pessoas merecedoras de crédito, fazer várias manobras e, em seguida, desaparecer; e como, alguns anos antes, um exército visionário semelhante foi visto na vizinhança de Inverness por um lavrador e seu filho, ambos criaturas respeitáveis. 

Neste caso, também, o número dos soldados era muito grande, e os dois espectadores não tiveram, a princípio, a mais pequena dúvida de que se tratava de gente de carne e osso. Contaram, pelo menos, dezesseis seções duplas, e tiveram bastante tempo para observar todos os detalhes. Os que iam na frente marchavam sete a sete e eram acompanhados por muitas mulheres e crianças, que levavam latas e outros apetrechos de cozinha. Os soldados iam fardados de vermelho, e as armas luziam ao sol. No meio deles ia um animal — uma corça ou um cavalo (não puderam ver bem o que era) — que eles aguilhoavam furiosamente à baioneta. 

O mais novo dos espectadores observou para o outro que de vez em quando, as últimas filas tinham que correr para apanhar as dianteiras;« o mais velho, que tinha feito serviço militar, observou ter sido esse sempre o caso, recomendando-lhe que, se alguma vez viesse a assentar praça, visse sempre se conseguia marchar nas primeiras filas. Havia só um oficial a cavalo; o cavalo era cinzento, e o oficial tinha um capacete ornamentado a dourados e uma capa azul de hússar, com largas mangas forradas de encarnado. Os dois espectadores observaram-no tanto que disseram que o reconheceriam em qualquer parte. Tiveram, porém, receio de ser maltratados ou de ser forçados a acompanhar as tropas, que lhes pareceu que deviam ter vindo da Irlanda, tendo desembarca-lo em Kyntyre; e, enquanto trepavam por cima de uma barreira para sair do caminho, tudo aquilo de repente desapareceu. 

Um fenômeno da mesma ordem se observou no princípio do século XIX em Paderborn, na Westfália, sendo observado por umas trinta pessoas; mas como, uns anos depois, uma revista a uns vinte mil soldados se realizou naquele mesmo lugar, concluiu-se que a visão fora uma espécie de dupla vista — faculdade não rara naquele distrito. 

Estes exércitos espectrais aparecem, porém, às vezes, onde um exército de homens normais de modo algum poderia marchar, nem antes nem depois da visão. Um dos mais curiosos relatos desse fenômeno é feito por Miss Harriet Martineau, lia sua descrição de Os Lagos Ingleses. Escreve ela: "Este Souter ou Soutra Fell é aquela montanha sobre a qual espectros apareciam aos milhares, a intervalos durante dez anos no século passado, apresentando o mesmo aspecto a vinte e seis testemunhas escolhidas, e a todos os habitantes de todas as casitas donde se podia ver a montanha, e isto por um espaço de duas horas e meia de cada vez — a passagem espectral acabando pela escuridão! A montanha, note-se bem, está cheia de precipícios, que tornam impossível toda a marcha de um número qualquer de homens; e do lado norte e oeste mostra uma face perpendicular de novecentos pés de altura. "Nas vésperas de S. João, em 1735, um criado do lavrador sr. Lancas-ter, estando a uma distância de meia milha da montanha, viu o lado oriental do seu cimo coberto de tropas, que, durante uma hora, prosseguiram na sua marcha. Vinham, em massas separadas, de uma saliência no lado norte e desapareciam numa cavidade no píncaro. Quando o pobre homem contou a sua história foi insultado por muita gente, como em geral acontece aos observadores originais quando vêem qualquer cousa de anormal. Dois anos depois, também na véspera de S. João, o sr. Lancaster viu ali alguns indivíduos, aparentemente seguindo, a pé, os seus cavalos, como se houvessem regressado da caça. Não deu importância a isto; mas, por acaso, tornou a olhar para lá passados uns dez minutos, e viu as figuras, agora montadas, e seguidas por uma massa interminável de tropa, cinco a cinco, marchar da tal saliência para a cavidade no píncaro, como dantes. Toda a família viu isto, assim como as manobras da força, à medida que cada batalhão era mantido em ordem por um oficial a cavalo, que galopava de um lado para o outro. À medida que caía o crepúsculo, a disciplina parecia enfraquecer, e as tropas, misturando-se, prosseguiram a passo irregular, até que tudo se perdeu na escuridão. Foi agora, é claro, a vez dos Lancastere serem insultados por toda a gente, como tinha acontecido ao seu criado; mas não tardou que viesse a sua justificação. 

"Na véspera de S. João do terrível ano de 1745, vinte e seis pessoas, especialmente para isso chamadas pela mesma família, viram tudo quanto eles tinham já visto, e mais. Carruagens estavam, agora, misturadas com as tropas, e toda a gente sabia muito bem que nunca tinham estado, nem podiam estar, carruagens no cimo do Souter Fell. A multidão era enorme; porque as tropas enchiam um espaço de meia milha e marchavam rapidamente até que a noite as escondeu, marchando ainda. Nada havia de vaporoso ou indistinto no aspecto destes espectros. Tão reais pareciam, que no dia seguinte alguns dos espectadores da véspera subiram à montanha para ver se lá estavam os sinais das ferraduras dos cavalos; grande foi o seu terror quando não viram sinal, de pé humano ou ferradura, na erva ou na terra. As testemunhas fizeram disto depoimento jurado perante um juiz; e foi por conseguinte terrível a expectativa de toda aquela região a respeito dos acontecimentos próximos da rebelião escocesa. 

"Soube-se então que tinha havido mais duas pessoas que tinham visto qualquer cousa de análogo no intervalo — isto é, em 1743 — mas tinham-no ocultado, para escapar aos insultos de que haviam sido vítimas os seus vizinhos. O sr. Wren, de Wilton Hall, e um criado seu, viram, uma tarde de verão, um homem e um cão sobre a montanha, perseguindo alguns cavalos num lugar tão íngreme que era absolutamente impossível que qualquer cavalo ali se aguentasse. A velocidade, com que corriam, era prodigiosa, e tão rápido foi o seu desaparecimento na extremidade sul do Fell, que o sr. Wren e o criado subiram até lá a manhã seguinte à busca do cadáver do homem, que com certeza devia ter morrido. De homem, cavalo, ou cão, não encontraram nem um sinal; por isso desceram e calaram-se. Quando chegaram a falar, não foram tratados com mais consideração por terem .vinte e seis companheiros na desgraça. 

"Quanto à explicação, o diretor do Lonsdale Magazine declarou (vol. II, p. 313) "que se descobriu que na véspera de S. João de 1745 os revoltosos estiveram fazendo manobras na costa ocidental da Escócia, e os seus movimentos foram refletidos por qualquer vapor transparente análogo à Fada Morgana". Não se pode dizer que seja uma explicação muito satisfatória, mas, que saibamos, é a única que até agora apareceu. Estes fatos, porém, fizeram com que se citassem muitos outros; como a marcha espectral, do mesmo gênero, observada em Leicestershire em 1707, e a tradição da marcha de tropas sobre o Helvellyn, na véspera da batalha de Marston Moor." 

Outros casos se citam em que rebanhos de carneiros espectrais têm sido vistos em certas estradas, e existem, é claro, várias histórias alemãs de cavalgadas espectrais de caçadores e de salteadores. 

Ora nestes casos, como tanta vez acontece na investigação de fenômenos ocultos, há várias causas possíveis, cada uma das quais bastaria para produzir as ocorrências observadas, mas, na ausência de detalhes mais completos, pouco mais se pode fazer do que lançar uma hipótese sobre as causas prováveis, que estavam em operação nesse momento. 

A explicação mais vulgarmente dada (quando toda a história não é posta de parte, por se considerar falsa) é que o que se vê é um reflexo, por miragem, do movimento de um exército real, que esteja manobrando ou marchando a. uma distância considerável. Eu próprio já, por várias vezes, vi a miragem vulgar, e sei portanto qualquer cousa dos seus espantosos poderes de decepção; mas parece-me que seria preciso que arranjássemos qualquer variedade nova de miragem, inteiramente diferente de aquela que a ciência atual conhece, para explicar estes casos de exércitos espectrais, alguns dos quais passam à distância de alguns metros do espectador. 

Em primeiro lugar, podem ser, como no caso citado, e que se passou na Westfália, apenas casos de previsão em grande escala — por quem arranjados, e para que fim, não é fácil de adivinhar. Podem, também, muitas vezes pertencer ao passado, e não ao futuro, e ser, de fato, reflexos de cenas dos registros akáshicos — ainda que aqui, também, se não compreenda bem a razão e o processo da imagem. 

Há muitas tribos de espírito de natureza perfeitamente capazes, se por qualquer razão o quisessem fazer, de produzir essas aparições pelo seu grande poder de manifestação (v. Manual Teosófico v, p. 60), e isto estaria perfeitamente de acordo com o prazer que têm em mistificar e impressionar os seres humanos. Ou talvez tudo isso seja bondosamente destinado por eles a avisar os seus amigos de acontecimentos que sabem que vão acontecer. Parece que deve ser qualquer explicação desta ordem que mais satisfaça a extraordinária série de fenômenos descrita por Miss Martineau — isto é, se os relatos, que lhe fizeram, são dignos de crédito. 

Outra possibilidade é que, em alguns casos, o que se tomou por soldados foi simplesmente um grande número de espíritos da natureza executando algumas daquelas manobras ordenadas que eles têm tanto prazer em fazer, ainda que se deva confessar que essas manobras raras vezes são de gênero que possa ser tomado por militar, a não ser por criaturas excessivamente ignorantes. 

Os rebanhos de animais são provavelmente, na maioria dos casos, meros registros, mas há casos em que eles, como os "caçadores selvagens" do conto alemão, pertencem a uma classe de fenômenos inteiramente diferente, e que está de todo fora do assunto que ora tratamos. Os estudiosos do oculto devem saber que as circunstâncias que cercam qualquer cena de terror intenso ou intensa paixão são susceptíveis de ser por vezes reproduzidas numa forma que precisa apenas um pequeno desenvolvimento de faculdades "psíquicas" para se poder ver; e por vezes tem acontecido que vários animais formavam parte dessas circunstâncias, e esses são, por isso, periodicamente reproduzidos pela ação da má consciência do assassino (v. Manual v, p. 83). 

Provavelmente o que haja de realmente verdade nas várias histórias de cavaleiros espectrais ou grupos espectrais de caçadores deve pertencer a esta categoria. E esta também a explicação, evidentemente, de algumas das visões de exércitos espectrais, como aquela da notável reprodução da cena da batalha de Edgehill que parece ter-se dado várias vezes durante alguns meses depois da data do combate, conforme o testemunharam um juiz de paz, um sacerdote, e outras testemunhas oculares, num curioso panfleto contemporâneo intitulado Prodigiosos Ruídos de Guerra e de Combate, em Edgehill, perto de Keinton, em Northamptonshire. Segundo se diz neste panfleto, este caso foi investigado ao tempo por alguns oficiais do exército, que reconheceram nitidamente algumas das figuras espectrais que viram. Isto parece, sem dúvida, ser um exemplo do terrível poder, que têm as paixões violentas do homem, de se reproduzirem e efetuarem, de qualquer estranha maneira, uma espécie de materialização do seu registro. Em alguns casos é evidente que os rebanhos vistos não deviam passar de simples hordas de elementais artificiais de vil espécie que tomavam essa forma para irem alimentar-se das emanações horrendas de lugares especialmente horrorosos, como poderia ser o sítio de uma forca. Um exemplo disto é dado pêlos chamados "Gyb Ghosts", ou espectros da forca, descritos em Mais Vislumbres do Mundo Invisível, p. 109, como sendo repetidamente vistos sob a forma de manadas de estranhos e disformes animais de aspecto suíno, correndo, escavando e debatendo-se noite após noite no sítio desse horrível monumento do crime. Mas estes pertencem mais ao assunto aparições do que ao assunto clarividência.

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